Stephen King e o crítico imbecil

Uma das histórias mais pitorescas que conheço envolvendo o mundo literário foi a tentativa de Stephen King de publicar alguns livros sob segredo com o pseudônimo de Richard Bachman, a partir do final da década de 70.

King, na época, já havia explodido com Carrie e O Iluminado, dentre outros, e tornara-se um bestseller, elevando a popularidade da literatura de horror a um nível nunca antes ou depois atingido.

Como produzia em ritmo de linha de produção e tinha mais estoque do que era possível publicar, King considerou a hipótese de desovar alguns romances no mercado, sem saturá-lo com seu próprio nome, reconhecendo também ter certa curiosidade em apurar como uma história se sairia sem a grife de seu nome na capa, tendo de justificar-se por si mesma.

O engodo funcionou perfeitamente por alguns anos e quatro livros foram lançados por King assinando como Bachman. Enquanto as obras assumidamente publicadas com seu nome o levavam a incrível marca de quatro obras simultâneas na lista de mais vendidos do The New York Times, seus livros bastardos, davam suas braçadas no mundo selvático das brochuras (livros comuns nos EUA, de preço mais baixo, mas não notórios por constituírem alta literatura).

Surpreendendo até o próprio autor, os livros de Richard Bachman começaram a construir um público próprio, claro que pequeno ante os exorbitantes números das obras assinadas com seu nome original, mas o suficiente para criar um segundo séquito de apreciadores involuntários.

O quinto livro de Bachman, A Maldição do Cigano, Thinner, no original, mais voltado ao terror que os outros do pseudônimo, obteve 28 mil exemplares vendidos, um número superlativo para um escritor que não tinha marketing algum, e que, por não existir, não dava entrevistas e não ia a leituras ou noites de autógrafos.

Stevie tencionava manter o engodo, publicando paralelamente com seu nome próprio e com o pseudônimo, até que, por conta da voz narrativa, comparações começaram a ser feitas e, em virtude da salingeriana impossibilidade de manifestação pública de Bachman, as suspeitas tomaram forma.

A burla acabou desmascarada por um fã, que, certo de que Bachman e King eram a mesma pessoa, investigou o registro das obras e descobriu que os livros publicados por Bachman haviam sido registrados em nome de King. Sem possibilidade de esconder-se por mais tempo, Stevie aproveitou o marketing possível em cima do fato para relançar os livros sob seu próprio nome, decuplicando as vendas (A Maldição do cigano foi automaticamente dos 28 para os 280 mil exemplares).

A nota inesquecível, todavia, vai para um crítico que teve a cretina ideia de resenhar o livro antes da revelação da autoria de Stephen King. O imbecil eternizou-se ao soltar a pérola de que aquele sim era um livro de horror bem escrito, não aquelas porcarias que Stephen King publicava…

Nem é preciso dizer a vergonha que deve tê-lo perseguido.

A despeito da velha rivalidade entre autores e críticos, alimentada por razões óbvias, já ter gerado “causos” dos mais pitorescos. Lego a este crítico a medalha de ouro!

Stephen King “matou” Bachman, mas depois deu um jeito de encontrar um baú do falecido cheio de histórias, e continua publicando com o pseudônimo regularmente.

 

Por Renan Alves da Cruz 

 

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