Sócrates, Religião e Filosofia

Muita gente boa pensa que, para se fazer Filosofia bem feita, não se deve levar em conta a “hipótese Deus”. Para os que entendem assim, só se faz Filosofia relevante se o pressuposto de que há um deus for abandonado.

E não falo só do Deus da religião bíblica. Refiro-me também a deus considerado como força impessoal ou mero princípio metafísico ou transcendente.

Não faz muito tempo, em debate de sala de aula virtual, expus determinada argumentação sobre um assunto e acrescentei uma nota teológica acerca do tema.

Pronto.

Foi o suficiente para eu ser chamado por um ou dois colegas de obscurantista e irracional e recebi pitos no sentido de que eu deveria deixar de fora concepções teológicas no debate filosófico, porque a Teologia já vem pronta do forno.

Na ocasião, respondi que Teologia não é Revelação. Teologia parte da Revelação, mas usa método racional; é construção da inteligência humana. E dei o exemplo do filósofo alemão Hegel, que lança mão de elementos fortemente religiosos na elaboração de sua Filosofia e quase ninguém procura impugná-la só por isso.

Recentemente, lembrei-me de outro filósofo muito bem recebido em vários círculos de pensamento: esquerdistas destacam que ele enfrentou o status quo da época e desafiou os deuses estabelecidos da cidade; conservadores o têm em grande estima, pois ele serviu de coluna contra o relativismo de certo grupo de filósofos daqueles dias; espíritas o veem como precursor do espiritismo e o filósofo católico Peter Kreeft escreveu uma série de livros de encontros imaginários desse pensador com críticos do cristianismo,tais como Maquiavel e Jean-Paul Sartre.

Tal filósofo é Sócrates.

O fato para o qual muitos não dão atenção ou que lhes escapa completamente é que não é preciso renunciar a “hipótese Deus” para se fazer boa Filosofia, pois quanto mais profundo é o alicerce, mais firme fica a torre.

E o que muita gente boa ignora é que a fundação do pensamento de Sócrates – e de todo seu bem sucedido edifício filosófico – é a revelação divina. Não a Revelação no sentido forte dos hebreus e dos cristãos, mas certo tipo de comunicação sobrenatural. O alicerce socrático foi o famoso oráculo de Delfos. Sobre isso, trago ao salão o que escreveu o professor de Filosofia José Américo Motta Pessanha (Sócrates, Os pensadores, Nova Cultural, 1996), pois assim a dança fica melhor:

“ A atividade filosófica de Sócrates tinha em sua origem – a crer no depoimento da Apologia platônica – uma dimensão religiosa.” (p.16)

“…Sócrates, ao contrário dos sofistas, não cobrava por seu trabalho: considerava-se a serviço do deus” (p.18)

Mas isso não se dá apenas com Sócrates. O conhecido Heráclito de Éfeso também assenta sua formulação racional sobre revelação religiosa, o que não espanta o fato de Hegel se reportar muito a Heráclito na construção do seu sistema filosófico. Nesse sentido, esclarece Pessanha, no mesmo livro:

“…A sabedoria oracular – que já havia marcado o pensamento e a linguagem de Heráclito de Éfeso (540-480 a.C) – parece constituir para Sócrates o absoluto em que se apoia a razão.” (p.17)

 Ou seja, fazer filosofia sem a “hipótese Deus” – seja no sentido religioso ou apenas metafísico – é UMA forma de fazer filosofia; não é a ÚNICA forma. Todo empreendimento filosófico tem um ponto de partida e a religião é – sim – uma gênese possível e válida para o filosofar.

Dessa forma, mesmo não sendo em contexto cristão, o caso de Sócrates é muito esclarecedor. Sócrates ilustra com toda força o exemplo de pensador relevante e admirado por “gregos e troianos”, que dá sustentação à ideia de que uma Filosofia Cristã (e por que não a Teologia?) não é tão boboca e simplória como parece, pois quanto mais profundo é o alicerce, mais firme fica a torre.

Por Pr. Marcos Paulo

 

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6 comentários em “Sócrates, Religião e Filosofia”

  1. ” Religião sem filósofia é sentimentalismo, podendo gerar preconceitos e até fanatísmo. Filosofia sem religião é deleite, especulação intelectual.”

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