Sobre livros, ebooks, livrarias acanhadas e kindles

A morte dos livros foi apregoada um sem número de vezes a cada inovação importante na indústria do entretenimento.

O rádio, especulou-se, acabaria com os livros.

Depois, a televisão (e acabaria também com o rádio)

A internet acabaria com tudo. O livro seria o primeiro a ser esquartejado. O marasmo da leitura não era páreo para a fluidez das informações em rede.

Por fim, quando ficou patente que o livro não será debelado, o enfoque foi alterado.

O que acabariam seriam os impressos. Os livros sempre existiriam, mas em caráter diferente, após migrar para as trombeteadas novas plataformas digitais.

E cá estamos. 2015. E os livros estão aí, firmes e fortes. As vendas estão em declínio, mas isso não é uma decorrência do formato, mas sim do declínio da cultura.

Os livros impressos sobreviveram.

Embora entenda que uma parcela migrará em definitivo para o tal ebook, acredito que o livro impresso nunca será substituído em caráter definitivo. Um pouco por romantismo de minha parte, mas também por nossa velha vaidade. Expor uma biblioteca de cinco mil títulos em estantes parrudas é bem mais impactante do que ter cem mil títulos num dispositivinho à bateria.

Não dá pra exibir a vasta cultura pelo Kindle!

Tenho sim ressentimento mal curado pelos ebook. Livros para mim ainda precisam ser táteis. Precisam ter cheiro. Precisam ter barulho de páginas virando.

Mas fiquei mais sensível ao papel das novas tecnologias na literatura após a conclusão da leitura do levíssimo A LIVRARIA 24 HORAS DO MR. PENUMBRA, de Robin Sloan.

Um livro delicioso para amantes de livros, daqueles que se sentem mais à vontade num sebo acanhado do que nas iluminadas megastores de shopping centers.

Clay Jannon pensa que o emprego que conseguiu, numa estranha livraria que nunca fechava as portas, seria apenas uma forma de manter-se ocupado enquanto um emprego melhor não surgia. Jamais poderia imaginar que aquela aconchegante espelunca escondia uma seita secreta de velhos amantes de livros.

Como Jannon é um amante das novas tecnologias e um googlemaníaco, quer modernizar a coisa toda, sem saber o real valor dos livros raros e esquisitos que aquela livraria guardava.

Uma homenagem a Gutemberg e aos primeiros tipógrafos, que nos força à reflexão da perenidade dos livros, que a tecnologia não pode soterrar, apenas melhorar.

Robin Sloan congregou num mesmo volume, apreço à tecnologia, respeito à história do livro e sua mitologia, uma seita secreta misteriosa e uma moral melosa, que talvez por isso, seja tão cativante.

Ainda não acatei os tais ebooks e estou certo de que no espólio que deixarei à descendência haverá alguns milhares de volumes espaçosos, pesados e ciumentos.

Ademais, estou mais tolerante com os Kindles e assemelhados.

Graças a livrariazinha do velho Mr. Penumbra.

 

Por Renan Alves da Cruz

 

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