Sobre a corrupção policial

Mesmo no BOPE, conhecido pela baixa tolerância com a corrupção, algumas laranjas podres tem sido encontradas. Uma ótima reportagem de Leslie Leitão em Veja, aborda o tema.

Recomendo a leitura integral, mas para este artigo, destaco um trecho:

“Em determinado momento, o bicheiro Alcebíades Paes Garcia decidiu que, para fazer a segurança dele, seria preciso recrutar integrantes do Bope. Criou-se então a ‘tropa do Bide'”, relata um delegado da Polícia Federal que investigou o grupo. Um vídeo de 2008 obtido por VEJA mostra três policiais da tropa de elite escoltando Bide até um carro. Tudo indica que os militares foram desmascarados e transferidos para outros batalhões, mas o inquérito militar que apurou o caso foi arquivado.

Não tenho dúvidas da honestidade da maioria dos policiais, não apenas do BOPE nem apenas do Rio, mas de todos os policiais brasileiros. Ninguém é inocente a ponto de crer que não aconteçam desvios. Sabemos que eles acontecem e que há a parcela corrupta. Mas estou certo de que a coisa não é tão endêmica a ponto de ser incontrolável.

Os atos isolados de corrupção policial mancham a imagem de toda a tropa. A polícia brasileira busca uma reconstrução de sua imagem como autoridade, um trabalho lento e que sempre retroage quando novas denúncias de desvios são reveladas.

A polícia não precisa ser sacralizada, mas merece ser respeitada e valorizada. A leniência das autoridades com a massiva execução de policiais revela que a desvalorização vem de cima, e que o papel do policial precisa ser rediscutido dentro da sociedade, não do modo como as esquerdas sugerem, com propostas que vão desde a desmilitarização ao afrouxamento das ações. A polícia precisa ser dotada de autoridade para atuar como agente mantenedor da ordem.

Para tal, não é aceitável que um policial pego em desvios seja “desmascarado e transferido para outros batalhões”. O BOPE faz muito bem de não permitir corrupção em suas fileiras, porém, mandar o corrupto para outro batalhão, geralmente mais combalido, aumenta o problema ao invés de resolvê-lo.

Policial pego negociando com traficante ou bandido em troca de propina coloca a tropa toda em risco. Não pode ser punido com transferência. Tem que severamente culpabilizado.

A corrupção policial gera um efeito cascata que termina na própria polícia. É claro que o corporativismo é forte dentro de uma força policial, e nem poderia ser diferente, ainda mais com a falta de apoio externo, ademais, o corporativismo que protege os que se acumpliciam ao crime é inverso. A corrupção desprotege a tropa.

O policial corrupto vende o fuzil para o tráfico, fuzil este que mata o policial honesto.

Não é possível compactuar com ações criminosas por intermédio da farda e não há pirueta retórica que justifique que o BOPE se limpe, sujando os outros batalhões.

Tenho grande admiração pelos caveiras, e pela polícia de modo geral. Entendo que os baixos salários e que a sensação de impunidade, mais intensa no policial que diariamente se arrisca para prender um bandido que a justiça vai soltar, acabe impelindo alguns para práticas impróprias, no entanto, não há o que justifique. Entendo, mas não aceito.

Deveria partir dos próprios policiais a cobrança de maior severidade no julgamento dos que, comprovadamente, cometeram deslizes contra a lei, o povo e a corporação.

Afinal, são os maiores prejudicados.

 

Por Renan Alves da Cruz

 

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Um comentário em “Sobre a corrupção policial”

  1. Sua análise é a equação do problema.Cabe às autoridades identificar com maestria o valor das icógnitas e chegar à solução. Amei!

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