Relatos Selvagens Vs Cinema Rouanet

Sinto dores e palpitações no bolso toda vez que vejo a lista de “apoios” dos filmes nacionais.

 A Lei Rouanet é como uma menina facinha da vizinhança.

Aquela que qualquer um cata.

Toda semana sai um filme brasileiro novo, via bolsa-Rouanet, e geralmente, é pior do que o da semana anterior.

Qual o resultado?

Não bastasse captarem dinheiro para fazerem filmes ruins, ainda roubam espaço nas salas de cinema, já que há agora também a “cota de tela”, que obriga as salas exibidoras a disponibilizarem um período mínimo de exibição da nossa Rouanetwood.

Ou seja, quando você chega para assistir uma super-produção de Hollywood,  encontra a sala esgotada,  e verifica que a nova comédia de algum ator global e um monte de desconhecidos está disponível com a sala vazia, não pule na jugular do gerente.

A culpa não é dele, e sim de nossas políticas culturais intrusivas.

E não podemos esquecer de que, o mesmo filme depois será reprisado à exaustão na tv a cabo, devido a obrigatoriedade de produções nacionais.

O cinema brasileiro parece estar se livrando do estigma de fazer filmes-favela. Mas ainda precisa se livrar do estigma de fazer filmes ruins.

E com dinheiro público.

É claro que nem todos são ruins. Cidade de Deus e Tropa de Elite são muito bons. Há também, dentre as trezentas comédias lançadas nos últimos oito anos, uma meia dúzia que se aproveite, mas o cômputo geral é inequívoco. Não há motivo para analisar a qualidade do cinema produzido no Brasil com leniência ou polidez.

Noventa e cinco por cento é porcaria. Você assiste e depois precisa recorrer a um antidiarreico!

Assisti ontem, pela segunda vez, ao sensacional Relatos Selvagens, de Damian Szifron.

O filme é argentino. Foi produzido no período mais nefasto do Kirchnerismo.

E está a anos-luz de distância de qualquer coisa que foi ou está sendo feita em termos de cinema no Brasil.

Ranquear filmes é algo difícil, até mais do que livros, que já demanda um espírito crítico minucioso, mas estou certo de que Relatos está entre os cinco melhores filmes que já assisti.

Szifron não cai na tentação vigente de embutir suas ações no catálogo progressista em voga. E consegue construir uma obra prima mesmo diferindo do formato atual utilizado para a construção de bons filmes.

Se o que há de melhor em Hollywood se constrói tal qual um foxtrote, buscando construir clímax com suavidade e detalhamento, Szifron consegue o mesmo resultado em pílulas, em espocares bruscos e imprevisíveis.

Se o que de melhor há em Hollywood ultimamente é baseado em fatos reais, o roteiro do longa argentino se situa naquela categoria de ficção voluntariosa que te faz pensar:

E se?

São seis histórias curtas, sem eixo central, unidas apenas pela convicção da selvageria humana que nos rodeia. Não há um gênero de inclusão objetiva. Drama, comédia, suspense, romance… tudo se conjuga sem contrapesos que o inclinem em demasiado. Li críticas que o definiam como Humor Negro, e embora este seja um fato, não o é apenas.

Relatos Selvagens é um pouco de tudo, sem ser tudo de coisa alguma.

Na primeira história, todos os passageiros de um avião, em pleno voo, descobrem partilhar uma insólita coincidência. A maior e mais definitiva de suas vidas.

Na segunda história, uma garçonete se depara com o homem que devastou sua família, e tem, no prato que lhe servirá, a possibilidade de escolher se vingar ou perdoá-lo.

Na terceira, a melhor, as incontornáveis consequências de uma ultrapassagem automotiva.

Na quarta, a história protagonizada pelo excelente Ricardo Darín: um homem acaba soterrado pela burocracia do departamento de trânsito de Buenos Aires, a ponto de dispor-se a qualquer coisa para fazer valer seu direito. (A conjuntura lembra muito a das grandes cidades brasileiras).

Na penúltima, a mais soturna, um milionário disposto a pagar qualquer coisa para encobrir um crime, lidará com as engrenagens da corrupção.

A última, a mais nonsense, elenca tudo o que pode dar errado numa festa de casamento.

Relatos Selvagens é um filme brilhante, multipremiado e merecidamente incensado pela crítica.

Parabéns ao cinema argentino.

Passem a receita aos cineastas de Rouanetwood.

Já que farão filmes com meu dinheiro, que façam coisas que eu consiga assistir…

 

Por Renan Alves da Cruz 

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