Os dez mandamentos (+um)

Texto escrito por: Pr. Marcos Paulo Fonseca da Costa

Dos quatro livros de Luiz Felipe Pondé que li – “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia”, “Contra um mundo melhor” e “Por que virei à direita” (em co-autoria com João Pereira Coutinho e Denis Rosenfield) – achei OS DEZ MANDAMENTOS (+um) o melhor.

Os três são bons. “Os dez” é excelente. Os três são profundos. “Os dez” é vulcânico. Os três são claros. “Os dez” é límpido.

Isso tudo porque Pondé, sem ser um crente, chega a camadas onde poucos teólogos se aventuram a escavar. Além disso, o livro toca em assuntos atuais porém sutis: idolatria da Política, da Democracia, dos finais de semana e dos egos. Trata também de feminismo, iluminismo, vitimização, etc. Penso, assim, que é livro urgente para os nossos dias.

Logo na introdução, Pondé mostra a que veio:

“ As religiões institucionais nunca me interessaram. Sou imune a elas. Sou livre. Pelo menos da religião, estou livre.” (p. 9)

“ Também permaneci imune ao ateísmo bruto, que pensa ser a descrença em Deus uma prova de força intelectual.” (p.9)

Ou seja, nem crente nem ateu. Nem Silas Malafaia, nem Richard Dawkins. Continua Pondé:

“ Sou uma espécie de ateu místico.” (p.10)

Surpreendentemente, Pondé, em OS DEZ MANDAMENTOS (+um), consegue ser uma voz que clama no deserto filosófico brasileiro, ao apresentar a fé bíblica hebraica de forma que poucos têm conhecimento ou coragem para fazê-lo.

Mesmo tendo uma visão secular da Bíblia – “ que é, afinal, um livro sobre a vida de um povo da Antiguidade, os hebreus .” (p.13) -, Pondé, em linguagem simples e direta, entra no escafandro e mergulha na Fé de Israel.

Livro curto, 122 páginas, e bem escrito, OS DEZ MANDAMENTOS (+um) traz meditações extraordinárias. Porém, advirto: é livro para adultos. Adultos na idade; adultos na teologia. Na verdade, é um livro de Filosofia da Religião, não de Teologia.

A obra tem 11 capítulos. Um para cada mandamento bíblico e um para o “mandamento” de Pondé.  Passo agora a mostrar um pouco de cada mandamento visto por Pondé, com citações extraídas do livro, porque convém que grandes livros e grandes autores falem por si mesmos.

O Primeiro Mandamento – Amarás teu Deus acima de todas as coisas

Tem início o gênio teológico de Pondé.  É quando ele começa a fazer suas declarações surpreendentes – e profundas – para um “ateu místico”:

“ Na Bíblia, o que importa acontece no meio do deserto porque lá tudo se transforma em pó e apenas o Eterno resiste.” (p.19)

“ Qual é o erro do idólatra? É adorar sua própria capacidade, esquecendo que somos seres insuficientes, isto é, que não detemos em nós mesmos as condições para superar a morte ou encontrar o sentido da vida” (p. 24)

O Segundo Mandamento – Não invocarás o Santo nome de Deus em vão

Pondé prossegue com suas boas tiradas:

“… o Segundo Mandamento busca significar exatamente isso: cuidado ao invocá-Lo porque Ele pode se aproximar, e quando o faz tudo se dissolve.” (p.35)

“uma vida vã, portanto, é aquela que toma a si mesma como epicentro das coisas. Sendo assim, a invocação de Deus será necessariamente vã quando cheia de cobranças e pedidos.” (p.45)

O Terceiro Mandamento – Guardarás domingos e dias de festa

Vamos em frente com Pondé:

“Chomer (em hebraico) é uma importante palavra para os judeus. Todos eles sabem que significa ‘aquele que guarda’.(p. 51)

“Quando Deus fala com Adão, ele o chama de chomer. Por quê? Porque tudo é de Deus e devemos guardar aquilo que nos é dado para guardar.” (p. 51)

“Há uma relação estreita entre os conceitos de graça e de chomer porque ambos falam de uma condição de falta que ‘irrita’ o homem caído: a graça implica que nós nada fizemos para receber o que temos, pois tudo é dádiva; chomer implica que não temos a posse do Ser, apenas o usufruto porque Deus é o verdadeiro dono.”(p. 52)

“Conforme o Terceiro Mandamento, respeitar o sábado ou o domingo e os dias de festa é uma atitude que nos coloca mais perto de Deus.” (p.59)

O Quarto Mandamento – Honrarás pai e mãe

Fala, Pondé:

“…para os hebreus, os fundamentos dos valores, das crenças e das verdades se assentava na tradição.” (p.64)

“ É interessante notar que entre os céticos da filosofia antiga, e mesmo no caso de Michel de Montaigne (1533-1592), o ceticismo sempre está acompanhado da valorização da tradição e do hábito, justamente porque, aos olhos desses pensadores, não se pode confiar nos castelos no ar que a razão constrói.” (p.65)

“ Embora não enfrentemos predadores, como nossos antepassados faziam, continuamos a ter de lutar com nosso demônios internos, que se materializam na cultura e permanecem à espreita, além de termos de encarar o desafio de precisarmos fundamentar decisões morais em um mundo de valores voláteis e instáveis – o que é um ato de coragem.” (p.73)

O Quinto Mandamento – Não matarás

Aqui Pondé enfrenta o embaraçoso problema de: “Deus mandou matar?”, com uma sinceridade cortante e tranquilizadora ao mesmo tempo. Veja o que ele diz:

“ A razão teológica dessa proibição (‘não matarás’) é o fato de que só Deus é o dono da vida (e de tudo o mais). Logo, apenas Ele pode tirar a vida” (p. 76)

“Tanto o aborto quanto o suicídio estão sob a tutela do Quinto Mandamento. Portanto, a primeira questão que ele coloca é que temos uma posse limitada sobre nossa própria vida.” (p. 76)

“ O direito de matar de Deus é uma das demonstrações mais radicais daquilo que, em teologia, chamamos de diferença ontológica entre Deus e a sua Criação. Isso quer dizer que o mandamentos são apenas para nós, porque Deus está cima da moral.” (p.76)

O Sexto Mandamento – Não cometerás adultério

Continua Pondé:

“A pergunta do homem reto ou da mulher reta é: como me comportar diante daquele que tudo sabe e tudo pode?” (p. 86)

“ Uma cultura pautada pela negação da responsabilidade moral, que nos considera sempre ‘vítimas’ de algo ou de alguém inviabiliza qualquer forma possível de pureza ou castidade.” (p. 86)

“Para alguns é a política que vai restaurar o mundo, e não a vida com Deus e seu apreço por um coração puro porque sincero diante de si mesmo. Desde o século XVIII – o século de Rousseau, o filósofo da vaidade – nós sofremos de uma fé cega na capacidade redentora da política. A democracia, por si só, já padece dessa autopercepção de pureza ao pensar-se como o melhor regime político entre todos – em linguagem mais coloquial, a democracia ‘se acha o máximo’.” (p. 90)

O Sétimo Mandamento – Não roubarás

Prossegue Pondé:

“Uma vez que tudo nos é dado de graça, segundo o sábio cristão lendo o Velho Testamento, desejar ser dono de tudo já é uma queda.”(p. 97)

O Oitavo Mandamento – Não levantarás falsos testemunhos

Ferinamente, dispara Pondé:

“Se não há a verdade, por que seria errado mentir?” (p. 101)

“Se não existe diferença entre verdade e mentira, não há problema em contar histórias falsas.” (p. 104)

O Nono Mandamento – Não desejarás a mulher do próximo

Vai lá, Pondé:

“O que importa é o fato de que parte da vida em sociedade depende da capacidade dos homens de não mexer com as mulheres que ‘já tem dono’.” (p. 108)

“Só se deseja a mulher do próximo quando se deixa de desejar a própria mulher.” (p.111)

O Décimo Mandamento – Não cobiçarás as coisas alheias

Sobre o último dos mandamentos bíblicos, Pondé afirma:

“Respeitar o valor daquilo que pertence ao outro é entender que o fruto do trabalho desse outro é o rastro que ele deixa em sua vida.” (p.113)

+um – O Décimo Primeiro Mandamento

Esse eu não digo qual é. Você vai ter que ler o livro se quiser saber. O que adianto é que se trata de invenção de Pondé, não pertence à Revelação do Eterno para o homem, como os outros dez.

Enfim, pelos três livros anteriores que li do autor, de alguma forma eu já sabia que OS DEZ MANDAMENTOS +um poderia ser o “espetáculo” que foi. Na verdade, o livro superou minha expectativa. Foi leitura excelente, vulcânica e límpida. Repito, é leitura urgente para nossos dias.

Não posso, entretanto, terminar sem isso. Apesar de não revelar o +um de Luiz Felipe Pondé, proponho não um mandamento, mas um clamor imaginário do próprio Pondé, como o do cego de nascença de João 9, prostrado perante o Deus vivo: “Creio, Senhor, e o adoro”.

 

 

Pr. Marcos Paulo Fonseca da Costa

 

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3 comentários em “Os dez mandamentos (+um)”

  1. Como que alguém escreve sobre os dez mandamentos, sem ao menos saber quais são os dez mandamentos? Pois, tenho por certo que ele não fez essa consulta em uma Bíblia.

    • Olá, Francisco.

      Acho que ele pode até ter lido sobre. Na verdade, creio que leu, pois pelo que conheço do trabalho do Pondé, ele tem uma base considerável de conhecimento bíblico.

      O problema é que falta o Espírito Santo para testificar… sem o qual, tudo é letra morta.

      Um grande abraço

      Renan

  2. O livro é fantástico! Eu fui moída do começo ao fim, como se ouvisse a voz do Eterno ecoando dentro de mim! O Renan tem razão: Sem o Espírito para guiar o leitor é “letra morta”,do mesmo modo quem ler as Sagradas Escrituras. Portanto, aquele que não invocar o Espírito, não aconselho ler nem mesmo a Bíblia!

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