O silêncio e a trapaça

Num orfanato católico um garoto começou a destacar-se pela inteligência. Lia muito, memorizava tudo e nunca precisava ser ensinado sobre uma mesma coisa duas vezes. Aos seis anos aprendeu a jogar xadrez e com oito, se tornara um oponente páreo para qualquer adulto experimentado.

Sempre que um casal aparecia no orfanato à procura de uma criança para adotar era sempre o favorito, mas depois do período de entrevistas, nunca o levavam. Os pais queriam uma criança “normal” e se assustavam com um gênio. Preferiam os que tiravam ranho do nariz ao que lera toda a obra de Dickens.

O tempo passou e ele completou 12 anos. Era brilhante. Mas já passara da idade normal de adoção. Não gostava de admitir que ainda tinha esperança de conseguir uma família, mas, no fundo, esperava que alguém aparecesse com a incomum vontade de adotar um garoto de 12 anos de idade.

O que parecia improvável aconteceu. Um casal de professores universitários apareceu. Eram moderninhos, progressistas, queriam exibir uma atração nova na sessão de exibicionismo engajado nos jantares chiques dos intelectuais.

O garoto era um primor. Inteligente, loquaz, engraçado, respeitoso. Um achado.

Todos no orfanato, embora tristes com sua partida, exultaram ante sua conquista. Os novos pais tinham um carrão, e provavelmente uma bela casa, além de notoriedade nos meios intelectuais.

Tal foi a surpresa de todos quando o professor voltou no dia seguinte para devolver o garoto. Estava desistindo da adoção. O padre levou-o para o escritório principal para saber o que havia e o garoto não queria contar.

Após muita insistência, revelou o ocorrido. O professor o convidara para uma partida de xadrez na noite anterior. Disse que queria lhe dar umas dicas. Começaram a jogar e o garoto começou a capturar peças do oponente com certa facilidade.

O professor então pediu que fosse à cozinha, para lhe trazer mais uísque.

Quando voltou, o garoto observou o tabuleiro e percebeu que estava alterado. Seu novo “pai” mexera nas peças durante sua ausência.

Resolveu interpelá-lo, suscitando sua ira:

“Como pode pensar que eu preciso roubar no jogo pra vencer um merdinha como você, moleque metido?”

Entendendo que aquilo poderia custar sua orfandade definitiva, mas impelido por seu senso de justiça, não aceitou ser fraudado. Se aquele homem queria adotá-lo como filho, que o fizesse apropriadamente, mas que não o tratasse de forma desonesta.

“Sim, o senhor mudou as peças de lugar, para que eu não ganhasse o jogo.”

O professor não lhe dirigiu palavra, apenas abandonou a mesa e no dia seguinte, o devolveu ao orfanato.

Mas o garoto nunca se arrependeu. Preferia a orfandade à tutela de um trapaceiro.


 

Adaptei livremente a pequena história acima de uma subtrama do livro Renascido de F. Paul Wilson. A considerei icônica em sua simplicidade. Não espero que ela dê um novo hausto ao convalescente fabulário brasileiro, mas apenas a ofereço como uma ilustração das mais modestas.

Espero que os bons nunca se calem. Nunca troquem a justiça por benefícios que pareçam maiores. Que todos aqueles que optaram por erguerem suas vozes contra os desmandos recorrentes não se prostrem ante a ditadura dos corruptos. Que estejamos prontos a envergonhá-los, não importa quais sanções a máquina surrupiada tente nos infligir.

Ante a inviabilidade de corrigi-los, que não nos privemos de delatá-los.

Por Renan Alves da Cruz

 

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