O que fortalece o PT não é a queda de Temer, mas sua permanência

Partindo do pressuposto de que vocês, leitores, formulam suas posições políticas baseando-se em valores e ideais, e não em interesses próprios e conchavos, concluo que querem o melhor para o país.

Também é o que queremos.

Para tal, é preciso usar menos a emoção e os instintos, e um pouco mais o raciocínio.

Há muita gente que hoje decanta o governo Temer e o defende com unhas e dentes, mediante a alegação de que sua queda fortaleceria o PT e traria Lula de volta em 2018.

Entre os defensores desta tese há gente bem intencionada, calcada em princípios legítimos, mas do qual educadamente discordo. No mesmo balaio há também os novos chapas brancas, os porta-vozes do Planalto, os amigos de tucanos, que usam o espaço na imprensa para pagar favores aos poderosos. Estes empunham tal defesa pelos motivos mais ladinos.

Mas vamos a uma compreensão analítica desta ideia:

Este grupo entende que, mesmo enrolado nas delações e gravações, e mesmo tendo sido o líder maior do PMDB durante todo o período em que a corrupção abundou e o PMDB se fartou, tal qual o PT e o PP – como lembrou Jakson Miranda no artigo Lula e o PT não querem derrubar Temer – Temer deve ser blindado e isentado para concluir o mandato, levando adiante as reformas que o país precisa.

Esta visão, presumo, entende que a conclusão das reformas melhorará a economia e esta melhora refletirá no humor político do brasileiro.

Por outro lado, uma queda de Temer agora ressuscitaria a figura política de Lula, que se apropriaria do discurso de que todos são iguais e que com ele, pelo menos, havia comida na mesa. A grande massa cairia na lábia e Lula voltaria todo pomposo ao Planalto.

Se aplicarmos à hipótese um olhar analítico, fica fácil compreender a irrealidade desta previsão.

Em primeiro lugar, a recuperação da economia não pode ser garantida com prazo especificado. Quem poderá dizer que as coisas se estabilizarão antes das eleições de 2018? O cenário econômico precisaria ser alentador para que isto fosse tomado como um ponto crucial na análise.

Além disso, para manter o cargo, Temer está negociando flexibilizações das reformas. Como garantir que elas realmente impactarão a economia, se é impossível prever de que forma serão – ou mesmo se vão ser – aprovadas?

Sobre a ascensão de Lula, o contexto é ainda mais claro. É só analisar seu capital político sob a hipótese de queda e a de permanência.

Sim, se Temer cair, o PT usará a tese do golpe para defender que foi ilegitimamente apeado do poder, mas terá um inimigo ferrenho a combater neste caso: a percepção popular de que o partido praticou corrupção e que faz parte da “farinha do mesmo saco” em que estão todos os outros.

A ideia de que todos  serem tratados como corruptos fortalece o PT pode funcionar em alguns recônditos mais lulistas do país, mas até agora não demonstrou prova de que sustentaria uma eleição.

“Mas Lula aparece em primeiro lugar nas pesquisas”, alguém pode argumentar.

E é aí que está em ponto. LULA APARECE EM PRIMEIRO JUSTAMENTE PORQUE A BLINDAGEM A TEMER REFORÇA O SENTIMENTO DE QUE HÁ UMA ELITE PROTEGIDA NO PAÍS!

É isso o que o PT quer. Se Temer cair, o PT vai usar a queda a seu favor, mas é muito melhor pro partido que ele permaneça. Para que, com toda a cara de pau que lhe é peculiar, Lula diga que a elite política brasileira tirou o PT do poder alegando corrupção, mas protegeu suas velhas raposas, com uma mãozinha do STF, outra do PSDB, e etc.

A tese preferida do PT, a da conspiração das elites, ganhará força.

Sim, e chegaremos a 2018 com Temer no governo, as reformas acontecendo (ou não) e Lula, se não for tornado inelegível – e hoje não é possível saber se isso acontecerá – poderá estar surfando num discurso de vitimismo, que é o seu preferido, com o jeito velhaco de sempre, “provando” com “fatos”, que houve um grande golpe para tirar o PT do poder sob alegação de corrupção, mas que os perpetradores do golpe, também corruptos, se blindaram.

E aí, Lula, calejado neste tipo de enfrentamento, ganhará musculatura para disputar para valer em 2018.

Não é a queda de Temer que pode ressuscitar Lula, mas sua permanência.

Por Renan Alves da Cruz

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