O PAQUIDERME CEGO

Você já se sentiu esmagado por alguma estrutura ou poder bem maior do que você?

Um amigo do peito ligou pra mim e disse que está assim hoje.

Menor que o menor carrapato do menor cachorro.

Menos nobre que vinho de cinco reais.

Ainda bem que isso não é apenas coisa de mortal. O famoso escritor C.S. Lewis (1897-1963), imortalizado por sua obra “As Crônicas de Nárnia”, também passou por algo semelhante. Contam seus biógrafos que ele se sentiu esmagado por forças anônimas.

Na situação de meu amigo, as forças são tão discretas que não as posso nominar por puro desconhecimento, pois nem ele mesmo consegue identificá-las com clareza.

Já na situação de Lewis, se os poderes não eram tão desconhecidos, eram pelo menos cegos, posto que nada viam a sua frente e contavam apenas com a própria existência. Em algum ano da década de 1910, Lewis teve de se alistar para combater na Grande Guerra, conhecida por aqui como Primeira Guerra Mundial.

Naquela ocasião, Lewis sentiu a impotência do indivíduo em face de poder sobre o qual ele não tinha nenhum controle e que não consultava a opinião dele para nada. Um verdadeiro paquiderme cego – grande, pesado, poderoso e que nada vê; só sabe que é ser vivente e só tem interesse em sua própria existência. Assim, tudo o que se põe sobre seu caminho está sujeito à destruição ou à indiferença. Naqueles dias, o corpo de Lewis esteve sob um poder cego e indiferente às preferências do escritor.

De forma semelhante, o angustiado e soturno Franz Kafka (1883-1924) descreve em “O Processo” a saga do infeliz Joseph K. Esse indivíduo se vê réu em um processo cujo suposto delito cometido por ele nunca lhe é revelado e cujos acusadores nunca saem da sombra. Além disso, K. só tem contato com servidores e agentes subalternos. Joseph K. também se encontra diante de estrutura esmagadora – outro paquiderme cego.

Tanto Lewis como Kafka trazem o tema delicado e sutil da impotência do indivíduo perante forças superiores.

Tanto Lewis como Kafka alertam para o rumo que pode tomar o poder estatal desenfreado e mal governado, como a biga romana sem condutor.

Tanto Lewis como Kafka apontam para a indiferença do Estado e da burocracia quando se metamorfoseiam em elefante de olho vendado e passam a ignorar anseios legítimos que deveriam assegurar.

Hoje, meu amigo vive seus dias de C.S. Lewis e Joseph K. ao se deparar com um rolo compressor e uma burocracia indiferente a um homem, sua mulher e seus três filhos.

O consolo, contudo, meu amigo encontra na vida do Apóstolo Paulo. Ao chegar em Filipos (Atos 16), Paulo faz o que seu mestre Jesus fazia: liberta uma jovem escrava de espírito de adivinhação. Por conta disso, o senhor da jovem, ao perder fonte de lucro, leva Paulo às autoridades filipenses, que, sem o devido processo legal – Paulo era cidadão romano – autorizam violência contra ele e o lançam na masmorra.Mais uma variação do paquiderme cego.

Lá, no escuro, em posição de tortura, açoitado e sem poder dormir, Paulo entoa cânticos espirituais e é socorrido sobrenaturalmente por Deus.

Por último,se você se sente sufocado por um poder ou estrutura bem maior que você, eu lembro: Lewis, Joseph K., Paulo, meu amigo; todos se depararam com o paquiderme cego. Os três primeiros não invocaram ajuda legal por não poderem ou não quererem; meu amigo não acha conveniente fazê-lo, mas digo o seguinte: diante do paquiderme cego, sempre será oportuno clamar ao Senhor, como Paulo o fez.

 

Por. Pr. Marcos Paulo

 

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