O exemplo de Guga e a falência do esporte brasileiro

Aproveitando o início do torneio de Roland Garros, o momento é mais que oportuno para uma homenagem a um grande esportista.

Acabo de ler a biografia de Gustavo Kuerten, publicada pela editora Sextante no ano passado e recomendo a todos. Guga foi um atleta exemplar que representou o esporte brasileiro com dignidade e empenho, a despeito de todas as conhecidas adversidades que atletas enfrentam no país. O livro narra a trajetória do tenista, desde seu início despretensioso em Florianópolis até a despedida das quadras em virtude de um problema crônico no quadril, passando pelas três conquistas de Roland Garros e a chegada ao topo do ranking mundial no ano 2000, numa época em que seus oponentes eram gente do quilate de, só para começar, André Agassi, Pete Sampras e etc.

 Sou fã de tênis. Por ser um esporte individual e de alto rendimento, popular nos países mais evoluídos no mundo, exige dos profissionais que buscam posições de ponta, um nível de qualidade e esforço sobre-humanos. A rotina de treinos é inominável e as partidas, além de muitas vezes ocorrerem em dias seguidos, dependendo dos torneios, podem ultrapassar três ou quatro horas de jogo. Diferente do futebol, por exemplo, em que um jogador pode deixar de desempenhar seu papel e mesmo assim ser “acudido” pelo bom resultado coletivo, o tênis é meritocrático ao extremo.

Os melhores são sempre os que somam ao talento um sobrenatural ritmo de treinamento. Dependem de si mesmos em todas as partidas e, quando ganham ou perdem, não podem recorrer a aspectos exteriores para justificar. Não é para acomodados, mas sim para os competitivos, que anseiam em conquistar o sucesso na profissão através do próprio suor.

Os feitos de Guga merecem grifo. Como esperar que um país que não consegue levar para o Ensino Médio alunos com conhecimentos básicos de matemática e língua portuguesa, forme atletas com qualidade internacional de competição? Diante de uma formação gangrenada, resta aos postulantes investir dinheiro próprio da família ou correr atrás de patrocínios privados, que para atletas da categoria infanto-juvenil, cobre apenas necessidades básicas. A engrenagem pública é tão escarniosa que só funciona, e muito bem, quando um brasileiro se alça no cenário. Aí há sempre uma “autoridade” querendo parecer corresponsável.

A biografia de Guga revela um caso emblemático da distorção. No ápice de sua carreira, no ano 2000, o comitê olímpico brasileiro exigiu que o atleta, para participar das Olímpiadas de Sidney, abrisse mão de seu patrocinador pessoal – a empresa Diadora – em favor de uma concorrente. Kuerten, que no começo da carreira, não teve apoio algum do COB, mas sim da Diadora, por quem era regiamente pago há anos, antes de que qualquer órgão brasileiro relacionado ao esporte notasse sua existência, recusou-se a jogar com um uniforme com o logo da Olympikus, fornecedora de material do comitê e concorrente direta de sua patrocinadora.

O COB, sob a batuta do interminável Carlos Arthur Nuzman, (vinte anos na presidência e contando…) manteve a postura, jogando o atleta contra a opinião pública, afirmando que o tenista era um ídolo que não sabia manter a idolatria. No melhor estilo de xerife de comarca que predomina em tantos órgãos esportivos brasileiros (vide a CBF), legaram a responsabilidade da deserção ao atleta, tratando-o como um impatriota.

Contudo, ante a pressão da opinião pública, que reconhecia em Guga um ídolo esportivo cioso de seu papel, o comitê, mesmo a contragosto, acabou cedendo no último momento e permitindo que Gustavo honrasse seu país e seu patrocinador.

A fidelidade de Guga para com a empresa que lhe oferecera a primeira oportunidade em detrimento a discurseira demagógica de que era um “traidor” revela um caráter com a qual os mandatários dessas bandas não estão acostumados.

Nutro grande admiração por Gustavo Kuerten como atleta e a leitura de sua biografia só fez este sentimento aumentar. Disputou e superou tenistas de centros de excelência europeus e americanos, formados em países de tradição esportiva, onde a prática é incentivada desde a escola, premiando os mais destacados e criando cidadãos competitivos e habilidosos nos talentos que demonstram e que se esforçam em desempenhar. Sem nada disso e ainda contando com o dissabor excruciante de ser emparedado pela instância que mais deveria apoiá-lo, Guga venceu. Número 1 do mundo e eterno tri-campeão de Roland Garros.

Guga demonstra grande gratidão à torcida brasileira, que o catapultou à vitória em muitas porfias. Creio que seus agradecimentos são sinceros e justos, contudo, ante um sistema educacional falido com a ótica vitimista que mina o talento de tantos jovens de destaque no esporte em categorias de base, seu sucesso é fruto de seu esforço, de sua família, seu treinador e seus patrocinadores.

Não é com orgulho que o digo, mas é preciso identificar a situação como se apresenta.

Gustavo Kuerten não venceu por causa do Brasil, venceu apesar do Brasil.

 

Por Renan Alves da Cruz 

 

Leia também: 

 

Andres Sanchez e a espúria mistura entre política e futebol

Boca Juniors x River Plate: Outra tragédia que poderia ter sido evitada

Digressões sobre a esquerda adolescente a partir de Salinger

Meu Google Reaça. Episódio 1: “O Intelectual de Esquerda”.

Protestos contra Dilma mudam até horários do futebol e petistas chiam

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *