Não fale com estranhos

Sou ferrenho defensor da leitura de ficção, por reconhecer nela a capacidade de desnublar a realidade. A overdose de acontecimentos da contemporaneidade exige que alguém que estime aculturar-se leia o suficiente de não-ficção para equilibrar-se perante o essencial da história, da filosofia e da política, ademais, muitas vezes é na ficção que encontramos a chave que desatravanca nosso raciocínio.

Não sou um purista inexorável, que só encontra prazer nos clássicos. Gosto de literatura contemporânea e não me envergonho de ler com frequência teimosa a chamada “literatura de entretenimento”, por ter um mínimo conhecimento da história, que me permite saber que o que muitos intelectuais desprezam hoje, servirá de documento de nossa constituição social no futuro, candidatando-se também à condição de clássico.

Tenho sim um preconceito literário. Às vezes até leio um ou outro arrasa-quarteirão, ademais, prefiro livros menos incensados, nem tanto por questionamento de qualidade, mas muito por questão de exclusividade. Adoro a sensação de topar com um livro esquecido num sebo, esgotado há décadas e encontrar nele uma leitura ímpar.

É o caso de Não Fale com Estranhos, da inglesa Ruth Rendell, que tendo lido há pouco mais de uma década, optei por reler e o redescobri como um livro melhor do que me lembrava.

A obra nunca figurou em listas de mais vendidos, não é reeditada há um bom tempo e nem acredito que seja novamente. Felizmente, é encontrada sem dificuldade em sebos, tanto físicos quanto virtuais, por menos de cinco reais.

O suspense psicológico é a forma motriz que mantém o leitor cativado pelas trezentas e cinquenta e poucas páginas do volume. John Creevey é um cidadão tranquilo e solitário que se apaixona já entre os trinta e quarenta anos por Jennifer, uma cliente da floricultura em que trabalha. Ela aceita se envolver, mas revela que ainda é apaixonada pelo antigo noivo, um professor universitário, que a largou dias antes do casamento. E confessa também que se ele reaparecer querendo reatar, ela o fará.

John, envolvido, dá pouca importância ao fato, até que o aparecimento do sujeito (um típico intelectual empedernido que nunca arruma emprego) faz com que Jennifer cumpra a promessa.

Enquanto a vida sentimental de Creevey entra em declínio, a única coisa que o sustenta é a descoberta involuntária de um ponto de trocas de mensagens cifradas de um grupo de espionagem adolescente, no qual John influirá decisivamente ao interceptar e também enviar mensagens.

A construção psicológica do personagem principal lembra o estilo de Patricia Highsmith. As desventuras de John Creevey suscitam perguntas sobre a solidez de nosso caráter. O que é preciso acontecer a um homem para que ele transgrida as convenções? Ele suportará o que lhe foi imputado pela vida, ou desertará a caminho da perversidade?

Perguntas que só serão respondidas nas páginas finais desta obra intrigante. Rendell, felizmente, não usa a onipresente desculpa do “fator social” para legitimar ou conduzir seus personagens às veredas da ilegalidade. Seus destinos são determinados pelo caráter que possuem.

Recomendo com efusão. Se estiver procurando uma leitura recreativa com substância a baixo custo, Não Fale com Estranhos é pedida excelente.

 

Por Renan Alves da Cruz 

 

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