Luiz Felipe Pondé e a Direita que despreza Bolsonaro

Creio que uma das declarações mais estupefacientes dos últimos tempos foi a proferida por Luiz Felipe Pondé no programa Roda Viva de 08/08/2016.

Perguntado, Pondé respondeu que se tivesse que escolher entre Jair Bolsonaro e Jean Wyllys, escolheria Wyllys.

Pontuando que o ex-bbb e hoje deputado do PSOL é uma das figuras mais histriônicas e enfadonhas da esquerda brasileira, percebe-se que o desprezo de Pondé por Bolsonaro é muito, muito… muito grande.

Se a declaração procedesse de um idiota qualquer, mesmo que situado à direita (a direita também tem seus babacas, afinal, “babaquice” é condição além-política), talvez não repercutisse tanto. O que a torna embasbacante é ter vindo de uma das mentes mais lúcidas da direita brasileira contemporânea.

Pondé é um acadêmico brilhante, um filósofo astuto e instigante, dono da escrita mais provocadora da direita brasileira. Notabiliza-se, principalmente, pela crítica ao politicamente correto e pela dissecação precisa da esquerda intelectual chique e seus maneirismos.

Nosso arquivo não mente sobre a admiração que temos por ele e por sua obra. Temos posts de resenhas de obras, indicações de livros, republicações de suas colunas e textos calcados em premissas originais dele.

Isto ocorre porque, a despeito de termos alguns pontos de vista diferentes, consideramos que nossas convergências são maiores e que, em aspectos cruciais, dividimos os mesmos preceitos, princípios e esperanças.

Logo, vê-lo pronunciar esta “preferência”, perdendo de tal maneira a compostura lógica, não apenas nos surpreende, como mostra que há certo desespero dessa, vamos dizer, direita mais “limpinha” para se descolar de Bolsonaro.

Reinaldo Azevedo tem feito coisa semelhantes, como já demonstramos AQUI, AQUI e AQUI. Contraditando ideias que ele mesmo defendia tempos atrás, ignorando a lógica, o blogueiro da VEJA tem usado Bolsonaro como um anteparo, uma defesa que saca da cartucheira toda vez que acuado, para demonstrar como faz parte de uma direita “melhor”, mais tolerante, politicamente correta,  evoluída, que não faz eco aos pronunciamentos de um deputado popular e desbocado.

Reinaldo Azevedo, sem pudores, chama Bolsonaro de homofóbico e intolerante, emulando a esquerda.

Pondé, ao menos neste particular, segue a mesma linha. Em vídeo publicado em seu canal no Youtube, disse que Bolsonaro e Feliciano atrapalham a consolidação do conservadorismo no Brasil.

Neste mesmo vídeo e em algumas outras manifestações, tanto em textos quanto em vídeos, o filósofo critica a atuação de Bolsonaro, principalmente no que diz respeito a questão homossexual.

Pondé se calca na ideia de que Bolsonaro não atua em consonância com o pensamento liberal-conservador.

Sendo ponto essencial do liberalismo a diminuição do Estado e a não intervenção dele na vida pessoal e na liberdade dos cidadãos, o discurso anti-gayzista, ao confrontar a sexualidade – uma questão íntima – afrontaria esta noção de liberdade.

Neste ponto, o que talvez ele desconheça ou opte ignorar, é que a atuação política de Bolsonaro em relação a questão homossexual se sustenta na exata proteção do indivíduo da ação invasiva do Estado, e não o contrário.

Por mais que Bolsonaro seja deputado há muitos anos, sua projeção nacional, como antagonista ao movimento gay, se deu no momento em que um material de propaganda homossexual seria distribuído nas escolas públicas.

Uma clara forma de imposição estatal que, num material de péssima qualidade, ao invés de, como o alegado, prevenir a homofobia, fazia propaganda da homossexualidade, com alegações como a de que ser bissexual aumentava matematicamente as chances (com erro de conta percentual no material, inclusive), de se apaixonar por alguém e ser correspondido.

Por ironia, o mesmo Reinaldo Azevedo, que hoje dá chiliques anti-Bolsonarianos, foi um dos principais críticos ao kit, que, indubitavelmente, se tratava de uma política intrusiva e aberrante do Ministério da Educação, então sob a batuta de Fernando Haddad.

Bolsonaro se tornou “inimigo” do movimento gay ao assumir a linha de frente do combate ao projeto.

Será que Pondé era favorável a ações vindas do Estado que, disfarçadas de antidiscriminatórias, fizessem proselitismo de opção/orientação sexual?

Em que ponto a ação de Jair Bolsonaro afronta princípios liberais?

Alguém já viu o deputado tentar impedir alguém, na intimidade, de transar com quem quisesse, desde que consensualmente?

Não partiu, a princípio, de Bolsonaro, a iniciativa de atacar homossexuais. O deputado se projetou  contra a aplicação do kit nas escolas públicas. A partir daí, a arena de discussão sobre direitos e, na maioria dos casos, privilégios aos homossexuais assanhou-se.

Erigido ao status de magno inimigo do movimento LGBT pelo próprio grupo, Bolsonaro prosseguiu, atuando em total alinhamento com o pensamento liberal-conservador, a saber:

– Impedindo que o Estado, via Ministério da Educação, sob falsos pretextos, invadisse áreas cuja prerrogativa de ensino é familiar.

– Apontando que o movimento LGBT, mediante a desculpa de combater preconceitos, exigia privilégios.

– Esclarecendo que já temos leis que punem quem pratica agressão, física ou verbal, a qualquer cidadão, não sendo necessário criar uma lei especial para homossexuais, mas sim, a aplicação das leis existentess

Mas Pondé, seja por desconhecimento ou algum interesse pessoal, faz parecer que a atuação parlamentar de Bolsonaro nos últimos vinte anos consistiu em tentar exterminar os homossexuais!

Acredito que ao dizer que entre Wyllys ou Bolsonaro, escolheria Wyllys, Pondé estava tentando, diante de um público diversificado, ou seja, uma plateia ainda não conquistada, soar isento e imparcial.

Ou talvez tenha sido só para “causar”…

Mas o fato é que um direitista, mesmo que antipático a Bolsonaro, dar tal declaração, é uma contradição clamorosa.

Jean Wyllys é aquele que faz carreira política como um combatente à homofobia, ao mesmo tempo em que apresenta um projeto de lei para que a cultura islâmica seja ensinada em sala de aula, cultura esta que persegue e executa homossexuais.

Fico agora reticente em relação a Pondé. Reinaldo Azevedo já é uma enorme decepção. Como já escrevi em outro artigo, o Reinaldo Azevedo de 2008, se pudesse viajar ao futuro, teria muita vergonha do Reinaldo Azevedo de 2016.

Espero que Pondé, ainda que não passe a gostar de Bolsonaro, não passe a usá-lo também como atestado de “isenção”, de “olha como sou de direita, mas sou tolerante e cabeça aberta”.

Espero que ele, do alto de sua inequívoca capacidade intelectual e retórica, consiga exprimir de maneira mais contundente porque Bolsonaro atrapalha a direita brasileira, e quais medidas caras ao deputado se situam além do espectro liberal-conservador.

E espero respostas de acordo com o discurso atual de Bolsonaro. Afinal, alguns de seus detratores dentro da direita o criticam por coisas que Bolsonaro defendia em épocas que, eles mesmos, militavam na esquerda…

A direita teórica, intelectual, precisa dar substância ao seu discurso. Não é obrigatório que, num leque de assuntos tão vastos, todos concordem entre si o tempo todo, ademais, com as pontuais desavenças e discordâncias, é preciso zelar pela coerência.

Não precisamos de uma direita, por mais culta que seja, que não coadune o discurso à prática.

 

Por Renan Alves da Cruz

 

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10 comentários em “Luiz Felipe Pondé e a Direita que despreza Bolsonaro”

  1. Excelente artigo! Alguém da estatura de um Pondé preferir Willys é de uma incoerência ímpar. Que direita é essa que prefere seus “algozes”?

  2. Também gosto de Pondé, mas ja havia feito uma critica semelhante a essa deste artigo em um dos videos dele onde critica bolsonaro.
    Parabéns, você foi enfático e detalhou todos os por ques desse posicionamento da direita anti-bolsonaro. Infelismente alguns fazem de desentendido por não aceitar a realidade.

    • Pondé é um cara brilhante, mas é uma cria do meio acadêmico… Por mais que haja muita coisa benéfica no que ele tem expressado na grande mídia, onde tem conseguido penetrar, o que ele tem feito com Bolsonaro é de uma baixeza inominável.

  3. Pondé não quis causar. Ele é apenas sensato e disse o óbvio. Mas o óbvio muda de cabeça para cabeça… concordo com Pondé em tudo que ele disse neste tema.

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