Luís Roberto Barroso e a “Vanguarda Iluminista”

Vez ou outra na história, alguém sempre retoma a crença ingênua no poder intocável da razão humana. O iluminismo e seu Século das Luzes (o XVIII) são o exemplo mais acabado disso.De forma geral, para os iluministas, a razão é o árbitro da conduta do homem, da fé, da política e de qualquer outra dimensão davida humana. Em uma palavra, a autoridade maior em todas as áreas da existência humana é a razão.

Essa forma de ver a razão gerou Revolução Francesa, Karl Marx e até o espiritismo de Allan Kardec.

No Brasil de hoje, também existem as tietes da razão iluminista: a revista Veja é uma e o ministro do STF Luís Roberto Barroso é outra. Os dois dessa vez estão unidos na “Carta ao Leitor” da edição nº 2440 (A “VANGUARDA ILUMINISTA”, 26 ago. 2015).

Segundo a Carta, Barroso deu palestra no Instituto FHC e ali teria dito que o papel da Suprema Corte Brasileira é servir de “vanguarda iluminista”. O editorial não explica bem o sentido da expressão mas parece que se trata de instância que pode dar vazão aos anseios mais progressistas da sociedade.

Sobre isso, certo tipo de distinção entre ética e moral pode trazer luz ao cenário. Alguém já separou ética de moral pelo objeto com que lidam: moral se refere ao que está enraizado na sociedade e deve ser conservado; ética diz respeito a novas questões propostas pelo tempo ou pelos reformadores sociais e que estariam na fronteira entre o velho e o novo – como por exemplo assuntos de bioética.

A expressão “vanguarda iluminista” soa ambígua a meus ouvidos, como o Hino Nacional executado a ritmo de funk. É como vejo essa “vanguarda iluminista” de Barroso. Penso que o Supremo em breve será vetor de imposição de novos costumes preconizados por reformadores sociais e grupos de pressão situados mais à esquerda.

Veja, por sua vez, não vê nada de mais na expressão barrosiana e a relaciona à atuação da Justiça Brasileira e ao fim da impunidade para onde as ações do Mensalão e do Petrolão parecem apontar.

No meu juízo, entretanto, “vanguarda iluminista” indica seta deprovável uso do STF para aprovação e reinterpretação de causas e desejos ligados a minorias poderosas e influentes: gayzistas, abortistas, etc.

Não deixa de ser irônico que até alguns progressistas da famosa Escola de Frankfurt – centro de estudo fundado na cidade de Frankfurt nos anos 20 do século passado (de inspiração marxista) – rejeitaram a noção iluminista da razão e, com ela, parte do pensamento de Marx.

Nesse sentido, as atrocidades cometidas pelo homem civilizado no Século XX (Primeira e Segunda Guerra, Nazismo, Comunismo, etc) contribuíram para a crítica da razão iluminista por outros grupos. A barbárie inclusive fortaleceu, de alguma forma, no meio ilustrado, a ideia cristã depecado, queda e redenção.

Bem antes desse males do Século XX, contudo, o cristianismo já punha o dedo em ristepara a ideia segundo a qual a razão humana deve ser o árbitro final e imparcial das questões e problemas do homem. De forma semelhante, a própria tradição religiosa dos hebreus, põe a revelação do Eterno como critério decisivo e último da vida real,tanto do indivíduo como da sociedade.

Ao fim, deixo para Veja e Barroso o entendimento de outro Luiz, que ajuda a desnudar a crença ingênua no poder da razão:

“Quem quer ver o mundo com a razão é também um derrotado, porque sabe que nunca será plenamente racional e ‘autônomo’ com relação a seus delírios irracionais. […] Quem conta a razão aos quatro ventos é porque nunca a viu.” (Luiz Felipe Pondé, A Filosofia da Adúltera, 2013, p. 88)

 

Por Pr. Marcos Paulo 

 

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