J. R. Guzzo e os cristãos que não sabem interpretar texto

Quando li o artigo Essa gente incômoda de J.R. Guzzo na Veja, confesso ter ficado positivamente surpreso.

Há muito tempo um veículo da grande imprensa não publicava algo favorável ou em defesa dos evangélicos. O texto de Guzzo, irônico, toca numa ferida bem própria da contemporaneidade: o ódio dos progressistas pelos evangélicos, justamente por não poderem controlá-los e doutriná-los conforme sua agenda.

Os evangélicos, portanto, se tornam “essa gente incômoda” do título, que se recusam a fazer o que os sedizentes donos do monopólio da virtude consideram adequado.

O texto de Guzzo, aliás, era a única coisa de aproveitável que havia naquela edição da revista.

Dias depois, li uma notícia que me deixou estupefato (e morrendo de vergonha).

Um monte de evangélicos estavam revoltados com J.R. Guzzo! Teve notinha de repúdio de Conselho Geral de pastores, vídeo revoltado de pastor-deputado, chilique de senador evangélico, fora os textos-resposta publicados em diversos sites evangélicos, acusando Guzzo de perseguição religiosa.

Gente… Que vergonha…

As pessoas não sabem interpretar textos simples. O texto de Guzzo era CRISTALINO na forma de demonstrar que estava ironizando justamente os progressistas de esquerda, revelando aquilo que eles manifestam de ódio por não conseguirem virar o jogo do evangelicalismo crescente no Brasil.

O troço virou uma celeuma e, de repente, até quem não leu o texto estava pedindo a cabeça do único colunista da Veja atual que mantém algum resquício de conservadorismo expresso nos textos.

Que vergonha destes muitos cristãos que fizeram este papelão… e que quando realmente tem sua crença aviltada, não dizem um pio.

Depois de algumas horas achando que o louco em tudo isso era eu, topei com um texto no Gospel Prime, de Gutierres Siqueira, chamado “Essa gente incômoda que não sabe ler ironias” e pude respirar aliviado por não estar sozinho.

O autor, aliás, fez uma pergunta que me deu até calafrios:

“Ora, se um simples texto em uma revista causa tanta incompreensão, como eles lidam com um texto tão difícil como o da Bíblia?”

Dá para refletir, não acham? Sempre correlacionei algumas hediondas heresias à má-intenção, mas acho que dá para colocar a burrice neste caldo também.

Até quando alguns cristãos farão apologia da incultura?

Semanas atrás publiquei o artigo Brigas de Galo na Rinha Teológica num portal evangélico, depois o republiquei aqui.

Recebi no site evangélico uma enxurrada de críticas porque pautei uma análise teológica em duas frases do conto Os teólogos de Jorge Luis Borges, um ficcionista brilhante, que era ateu.

Pediram minha cabeça ao site, disseram que eu estava escrevendo heresias porque recomendei aos leitores que lessem Borges…

Ninguém se importou com nada do que escrevi, muito menos se empenharam em entender que eu não estava usando Borges como guru teológico, pelo contrário, estava apontando justamente de que forma a teologia é enxergada numa visão externa.

Mas fui achincalhado, por gente que não lê, se orgulha disso e ainda quer impedir os outros.

Será que entendem moderadamente os textos bíblicos?

Será que se lerem 30 vezes o texto de Guzzo conseguirão entendê-lo?

Que vergonha, minha gente!

Perdoe-os, Guzzo, eles não entendem o que leem.

Por Renan Alves da Cruz 

 

 

 

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