A especialidade da casa: uma iguaria literária

Qual a especialidade da casa? Vamos lá! Desde jovem, sempre tive um carinho muito grande por contos. Não tenho ideia de quantos deles li ao longo do tempo, mas creio que mais de meio milhar.

A maior qualidade de um conto é sua intensidade. Ler um conto “de uma sentada só” é muito mais adrenalizante do que um romance de 500 páginas. Também adoro romances, mas são formas e qualidades distintas.

O conto se apega e desapega rápido.

O conto se intensifica e depois se evanesce.

Gosto muito de um formato de coletâneas, em que os contos são de autores diferentes. Prefiro as diversificadas pinceladas dos artistas do que a experiência quando proferida pela mesma voz. Mesmo um contista notável como Jorge Luis Borges, no lado cult, e um prolífico ao extremo como Edward D. Hoch, no lado pop, são melhores quando embolados no meio de outros.

Esta semana peguei uma coletânea temática e, para minha surpresa, a abertura do livro cabia ao excelente conto “A Especialidade da Casa”, de Stanley Ellin.

Já topei com ele em outras quatro ou cinco coletâneas, o que não é comum, de maneira que, creio que ele seja, com merecimento, um conto premiado e reconhecido.

Todas as vezes que topo com ele o leio, e, como uma iguaria digna do restaurante Sbirro’s o saboreio de novo, provando sabores que antes havia passado despercebidos à minha degustação.

O Sbirro´s é um restaurante pequeno frequentado apenas por homens. Se uma mulher entrar, ficará sentada por horas e não será atendida e os garçons ignorarão seus chamados. (Não pirem, feministas, se um dia lerem o conto, entenderão o motivo). Os frequentadores são sempre os mesmos, e há raras alterações no funcionamento.

Lá não há cardápio. Todos comem a mesma coisa, e comem o que o chef preparar aquele dia. Não há como recusar ou mudar de prato. Ninguém tenta. Nem precisa. Tudo o que é servido no Sbirro’s é estupendo, a ponto de não haver sal, pimenta ou qualquer condimento acessível ao público.

A comida é sempre digerida exatamente como sai da cozinha.

Além de não haver menu, não há qualquer indicação prévia ou calendário do que será servido a cada dia. É uma surpresa imprevisível até o prato chegar à mesa.

Há, no entanto, uma esperança comum a todos: a especialidade da casa.

Nunca se sabe quando será servido, mas, é consenso entre todos os frequentadores habituais que é o grande prato do Sbirro’s, seu equivalente gastronômico à Capela Sistina.

E voltam dia após dia na esperança de que seja aquele o dia do prato especial.

A especialidade da casa é um cordeiro… mas como tudo no Sbirro’s é especial, formidável.

Indescritível.

A cozinha do Sbirro’s recebe uma aura de santuário, o chef, a de papa.

Não por acaso, a especialidade da casa é um componente, digamos, com grande importância simbólica na religião…

Stanley Ellin conseguiu produzir uma pequena obra prima. Nada fica pendente. A sutileza da condução é sublime. Creio que muitos que leram esta pérola não conseguiram extrair dela tudo o que simboliza e representa.

Muitos sequer conseguiram entender sua literalidade.

Daqui há algum tempo, como acontece com frequência, toparei com este conto de novo. O lerei, salivando de alegria, como se fosse uma dos fiéis clientes do Sbirro’s.

E, certamente, perceberei algo novo.

Se você, meu amigo e leitor, encontrá-lo por aí, lhe dê um tostão de seu tempo precioso.

Mas cuidado.

Aprecie com moderação.

Por Renan Alves da Cruz

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