Entrevista com Pr. Marcos Paulo Fonseca da Costa: conservadorismo, direita, PT, MBL, Olavo de Carvalho e muito mais.

Conhecemos o trabalho do Pr. Marcos Paulo através da plataforma de contato do Voltemos à Direita. Ele acompanhava o portal e tinha desejo de colaborar.

Quando artigos nos são encaminhados para avaliação, às vezes não podemos publicar, seja por questões de qualidade, ou mesmo alinhamento ideológico. Todavia, no caso do Pr. Marcos Paulo, logo de cara, foi possível perceber que havia talento, firmeza, erudição, coerência e coragem em seus textos.

Desde então, se tornou um colaborador regular do portal, com visões próprias e firmes sobre política, cultura e conservadorismo.

Como sabemos ser o caso de muitos leitores, que aguardam seus artigos com expectativa (o mesmo acontece conosco), resolvemos entrevistá-lo, para inaugurar a sessão de entrevistas do Voltemos à Direita.

A entrevista com Marcos Paulo foi realizada por e-mail, ele gentilmente respondeu nossas questões e, com sua clareza peculiar, analisou o pensamento conservador brasileiro, a política como um todo, e o PT, discorrendo ainda sobre pensadores como Luiz Felipe Pondé e Olavo de Carvalho.

Marcos Paulo Fonseca da Costa merece ser lido e nos orgulhamos de poder dar mais visibilidade ao seu trabalho:

1- Pastor Marcos Paulo, o conceito de cosmovisão cristã também se aplica a política, certo? À direita? À esquerda? Ou tanto faz?

 Ao longo de toda a Bíblia se vê a influência da política sobre o povo de Deus e o povo de Deus influenciando governantes e autoridades. O livro de Daniel, o livro de Jeremias e o livro de Atos dos Apóstolos mostram claramente a relação de homens de Deus com autoridades e como o Criador se vale das estruturas políticas para realizar seus intentos.

O Messias prometido de Israel, Jesus, veio da parte de Deus. E Deus é mais amplo do que qualquer espectro político. A revelação do Deus Eterno é muito vasta. E aquilo a que chamamos direita e esquerda acabam se enquadrando no plano do Altíssimo.

Explico melhor: a direita ou o conservadorismo preza por conquistas testadas ao longo dos séculos e que funcionam – família natural, Fé em Deus, valorização da tradição, certo grau de independência frente aos problemas práticos da vida, etc. Por outro lado, certas bandeiras “sequestradas” pela esquerda também estão presentes no âmbito da Revelação: justiça, virtude, ajuda ao necessitado, amparo ao oprimido (órfão, viúva, estrangeiro). O Livro do profeta Isaías, por exemplo, traz muito do pensamento do Eterno sobre redenção, libertação e solução final contra o mal.

Muitos grupos humanos se apropriaram de alguma forma desses conceitos e tentaram antecipar na terra as realizações que Deus se propôs a realizar num futuro incerto – Iluminismo faz isso; Marx e seus seguidores fizeram isso.  A tentação do homem de lançar mão disso e querer tomar o lugar de Deus é grande e sempre está presente. O problema, como já disse, é apropriação indevida, o sequestro de diretrizes que o Eterno deixou em sua Palavra por grupos que desprezam o Sagrado.

E aqui vejo que esse é o motivo principal pelo qual é difícil hoje combater, por exemplo, o movimento da missão integral. Posso dizer, sem medo de errar, que missão integral no meio evangélico guarda relação com a Teologia da Libertação do catolicismo romano. Como esse pessoal age? Usam conceitos da Escritura e introduzem motivações e métodos marxistas.

Dessa forma, em função dessa “apropriação indébita” de princípios de justiça e amparo ao fraco estabelecidos por Deus, penso que a militância do servo de Deus à esquerda está comprometida e que, em geral, o conservadorismo e a direita estão mais próximos de agradar ao Altíssimo do que a esquerda. Além disso, entendo que as comunidades cristãs devem retornar à prática diaconal que lhes é própria e lhes pertence por herança, a fim de se submeter ao que prevê a Escritura e a vontade de Deus, pois isso contribuirá decisivamente para que se esvazie o discurso dos que estão à esquerda. Talvez essa voz secular do marxismo travestida de linguagem bíblica – missão integral – tenha crescido tanto por causa do esquecimento da Igreja de sua obrigação diaconal.

 2 – O PT (Partido dos Trabalhadores) chegou ao poder com grande ajuda de alguns lideres evangélicos. Qual a sua opinião sobre isso?

 Olha, a última vez que votei em Lula e no PT foi nas eleições de 1994. Mas eu não era evangélico naqueles dias. Assim como muita gente, fui seduzido pelo discurso da crítica à injustiça e atraído pelo monopólio da virtude que o partido de Lula encarnava. Quer queira quer não, o discurso de esquerda nos lembra a voz de Deus, esse discurso contém fragmentos da Palavra de Deus e isso normalmente atrai muita gente. Na eleição de 2002 à Presidência, Lula passa por metamorfose e vai do “Sapo Barbudo” ao “Lulinha Paz e Amor”. Para isso, contou com ajuda de líderes evangélicos como Caio Fábio, Silas Malafaia e outros.

Entendo que o engano fundamental que leva o cristão a apoiar a esquerda num contexto como o nosso é o que expliquei na resposta à primeira pergunta: princípios bíblicos adicionados ao modo de operar marxista.

Contudo, recentemente, Caio Fábio declarou em hangout seus dissabores com o PT. Mas continua esquerdista, uma vez que apóia Marina. O Pastor Silas Malafaia, por sua vez, vem já há algum tempo travando combate contra a esquerda e não faz muito tempo gravou um vídeo contra pastores esquerdistas (os da missão integral).

No mais, penso que apoiar políticos esquerdistas e um partido que é um canal poderoso do marxismo na sociedade brasileira, como o PT, é sempre grave para o servo de Deus e essa pessoa terá de prestar contas ao Eterno por isso.

 3- Em seus artigos, você demonstra ter um grande conhecimento filosófico. Seu interesse pela filosofia começou cedo?

 Começou em 1996, quando ingressei mediante exame vestibular no Curso de Economia da UFPE. Ali, fiz muita leitura de Filosofia e, verdade seja dita, acabei lendo mais filósofos do que economistas. No ano seguinte, comecei a cursar disciplinas isoladas no departamento de Filosofia e no início de 1998, eu já era aluno regular do Bacharelado em Filosofia da mesma universidade, desta vez mediante transferência interna.  No período em que cursei Direito na UFPE, 2002 a 2007, diminui um pouco a leitura filosófica, mas nunca a deixei totalmente de lado. Na fase da Teologia, 2008 a 2010, reatei o romance (risos) e, de 2011 pra cá, tenho estreitado os laços com a Filosofia.

4- Você não teve receio em ter sua fé em Cristo abalada, por ler autores como Antonio Gramsci, por exemplo?

 Entrei em contato com autores como Gramsci num período em que não dava o testemunho pessoal do Messias de Israel. Dessa forma, quando passei a seguir a Jesus, já tinha travado contato com diversos autores não cristãos. Nesse sentido, curiosamente, aconteceu o inverso do que você pergunta. Em 1997 e 1998, quando estava na Filosofia, eu era kardecista. E ali, na faculdade de Filosofia, deixei de sê-lo. Estudei o Iluminismo do século XVIII e a crítica à ideia do Progresso, central no kardecismo e vi que o ensino de Allan Kardec era algo nada atemporal e perene, como o Altíssimo. Pelo contrário, percebi claramente que o Espiritismo era datado, era uma versão espiritual do Iluminismo do Século XVIII e de suas doutrinas. Ou seja, no meu caso, a Filosofia foi fundamental pra eu me aproximar do Deus Eterno.

Além disso, a Filosofia me ajuda muito na análise teológica. Estou trabalhando num livreto no qual faço crítica à missão integral. Por conta do hibridismo da missão integral – já explicado acima – é difícil esquadrinhá-la. Mas, com ajuda de certo esquema aristotélico, penso que consegui desatar o nó da missão integral e mostrar de forma irrefutável que ela é sim marxista. Aproveito para fazer um apelo por editor (risos): se algum leitor desta entrevista tiver interesse em examinar e patrocinar a publicação, a obra está quase finalizada e é só entrar em contato comigo.

5- Seus artigos deixam entrever uma admiração por Luiz Felipe Pondé. Que outros autores conservadores você lê e o que pensa da direita atual? 

 João Pereira Coutinho tem um livro pela Ed. Três estrelas chamado “Conservadorismo explicado a revolucionários e reacionários” em que ele mostra que o conservadorismo se opõe tanto ao que Olavo de Carvalho chama de mentalidade revolucionária quanto ao apego doentio pelo passado, dos chamados passadistas ou tradicionalistas.  Roger Scruton é outro autor conservador, anglicano como eu, do qual já li algumas linhas. Há também o professor da UFRGS Denis Rosenfield, cuja obra merece ser apreciada.

Mas quero voltar a Olavo de Carvalho. Tive contato com esse professor no ano de 1997, quando ele ministrou um curso na UFPE sobre a obra que ele lançara naquele ano “Aristóteles e os quatro discursos”. Fiquei surpreendido com ele, pela contundência das afirmações e pelo conhecimento que possuía. Depois, nos anos de 1999 e 2000, quando morei no Rio de Janeiro, li vários artigos do falecido Bob Fields (Roberto Campos), publicados todo domingo no Jornal “O Globo”. Depois, em 2001 e 2002, acompanhava mensalmente o Olavo na revista Época. E penso que foi assim que me tornei conservador e direitista.

Porém, algo importante deve ser dito sobre Olavo. Muitos evangélicos, como eu, tem aprendido sobre Filosofia e Política com ele. Todo mundo sabe que ele é Católico Romano e proselitista dessa religião. Sei de pelo menos um pastor e esposa – essa mestre em Filosofia – que deixaram a religião evangélica e se converteram à religião romana por influência de Olavo.

E aqui deixo o recado: há sinais inequívocos de que Olavo na verdade é herdeiro intelectual e seguidor de dois mestres esotéricos, René Guenon e Fritjof Schuon, talvez os dois maiores expoentes do perenialismo contemporâneo. Perenialismo ou Filosofia Perene, em síntese, é uma cosmovisão que entende que toda religião procede do Altíssimo. Por isso, que Olavo transita bem entre evangélicos, espíritas, islâmicos, etc. O que digo ao evangélico é: leia Olavo com cautela, sabendo que por trás da magistral análise política, existe um projeto de suposta restauração do Catolicismo Romano, mas que, no fundo, trará o perenialismo como ideologia. Na Bíblia, só a religião revelada a Israel procede do Eterno.

Feita essa ressalva, penso que a direita atual está fortalecida e recrudesceu. E Mais. Existe ainda o espectro direitista composto pelos liberais, o que inclui aqui o anarquismo de direita, o chamado anarco-capitalismo. Os anarco-capitalistas, contudo, tem posições morais fronteiriças com os marxistas: aborto, casamento homossexual, liberação irrestrita de consumo de drogas e outros quesitos, cujo exemplo mais acabado no Brasil é o do Kim Kataguiri e seu MBL. Isso tudo faz da realidade um terreno complexo e que torna a análise política delicada e difícil de ser feita; muitas vezes não dá pra separar de forma estanque direita e esquerda, é preciso depurar mais.

Por fim, vamos ver como vai se movimentar o NOVO: se vai bandear completamente para o anarco-capitalismo ou se vai manter posições conservadoras no terreno moral.

 6- Você acredita que nas próximas eleições, os cristãos em geral e particularmente os cristãos evangélicos, estarão com conceitos políticos mais amadurecidos?

 Penso que sim. De alguma forma e mesmo não sendo a candidatura dos sonhos, o PSC e o Pastor Everaldo contribuíram para o fortalecimento da perspectiva cristã.  A presença do Pastor Marco Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara também fortaleceu uma agenda conservadora. A oposição acirrada que Feliciano sofreu ali das esquerdas seculares e da esquerda evangélica aponta para o fato de que o trabalho dele era bom. O Pastor Silas Malafaia também tem ajudado muitos a abrirem os olhos sobre os males da esquerda marxista e dos anarco-capitalistas.

Do lado católico, prefiro não falar, apesar de acompanhar os movimentos do papa e de algumas personalidades no Brasil e da esquerdista CNBB.

 7- Atualmente, com qual líder político brasileiro você tem maior afinidade?

 Sinceramente, com nenhum. Que eu tenha conhecimento, ainda não apareceu o político dos meus sonhos no Brasil: servo do Deus Altíssimo, intelectual e de bom senso. Contudo, vejo como bom presságio figuras como Levy Fidélix, Pastor Everaldo, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Em âmbito regional, o deputado estadual Marcel Van Hattem, lá do RS, pode também se projetar nacionalmente e trazer bons ventos a um ambiente abafado.

 8- Na política, irmão (crente) vota em irmão?

 Não necessariamente. Veja o caso de Eduardo Cunha. Irmão, mas tem se mostrado um homem nada evangélico, pelo menos no quesito dinheiro. Além do mais, penso que o Pastor ordenado não deve ser candidato a cargo estatal eletivo, pois existe um chamado específico do Eterno para esse tipo de pessoa. O pastor ordenado tem de cuidar do rebanho, se aplicar no estudo e ensino da Escritura. Os demais membros podem ser candidatos.

Votar em candidato evangélico pode ser um dos critérios para se escolher um político, mas não o único critério. Eu, por exemplo, na última eleição presidencial, não votei porque estava fora do meu domicilio eleitoral, mas se fosse votar, votaria no católico Levy Fidélix e não no Pastor Everaldo. Levy me pareceu mais firme na defesa de valores da família e mencionou o perigo da Organização Comunista Foro de São Paulo. Já o Pastor Everaldo parece que não soube dizer a que veio.

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Marcos Paulo Fonseca da Costa nasceu em 1975 em Recife-PE. É casado e tem três filhos. Entre os anos de 1996 a 2007 esteve matriculado em três cursos universitários na UFPE, mas não os concluiu: Economia, Filosofia e Direito. Em 2008, iniciou Curso Livre de Teologia (equiparado a Bacharel) pela Igreja Episcopal Carismática (uma variante do Anglicanismo), denominação a que está vinculado até hoje. Também em 2008 iniciou suas atividades pastorais. Terminou a Teologia em 2010 e validou o Diploma em 2013. Atualmente, cursa Pós-Graduação Lato Sensu em Filosofia, com previsão de término para novembro deste ano.

Artigos publicados no Voltemos à Direita

 

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2 comentários em “Entrevista com Pr. Marcos Paulo Fonseca da Costa: conservadorismo, direita, PT, MBL, Olavo de Carvalho e muito mais.”

  1. Antes de tudo parabéns pela bela entrevista.
    Agora pra falar com maestria não imagino outra pessoa tão completa em conhecimento como o Pastor Marcos Paulo. Observem que pra ter conhecimentos de causas você precisa conhecer à fundo passando até mesmo não só por livros e autores, cursos mas, viver na própria pele todas:espiritismo, catolicismo… até conseguir chegar há algum lugar onde a razão e a coerência façam morada e tenho certeza que as Escrituras estão muito bem interpretadas por esse jovem Pastor que com certeza diante de tanta sabedoria guiará seu rebanho para o bem maior… DEUS!

  2. Parabéns, Pr Marcos Paulo!
    Texto magnífico que demonstra a profundidade e abrangência dos seus conhecimentos. Que nos trás reflexões para o cenário que estamos vivendo, onde existem articulações ideológicas, recheadas de uma teologia impregnada de ideias marxistas que, sorrateiramente e sutilmente, buscam influenciar o povo brasileiro.
    Admiro muito a contundência, firmeza e imparcialidade com que expressa suas ideias, articulando-as com
    originalidade e coragem. Aprecio sobremaneira nossas conversas acerca dos assuntos políticos e os rumos
    do evangelho no nosso país. Que me leva, por sua influência, a aprofundar nesses assuntos. Por fim, o Pr Marcos Paulo, desponta como uma voz inspiradora que está contribuindo para esclarecer e combater os ideais diametralmente opostos a fé cristã.

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