A direita que faz oposição a si mesma

Como dizia Goethe, escrever é um ócio trabalhoso…

Mas vamos lá!

Leio Rodrigo Constantino. Gosto muito de sua abordagem e de seu estilo. Conheci o trabalho de Constantino quando ele era um ferrenho defensor liberal, mas desdenhava o conservadorismo. Isto nos distanciava ideologicamente.

Em determinado momento, porém, Rodrigo reconheceu que havia subestimado a importância do conservadorismo, e juntou-se à nossa lista de convivas. Desde então, leio seus textos com enorme satisfação e congruência ideológica.

Tive a felicidade de ver alguns artigos meus publicados em seu blog e, além de grato, sou vivaz apreciador do seu trabalho. Reconheço sua contribuição à direita.

Rodrigo Constantino, no entanto, é ateu.

Eu sou cristão. Evangélico. Protestante. Praticante. Professor de escola bíblica dominical…

Nossas cosmovisões, neste importantíssimo quesito, se afrontam. Meu pensamento dista anos-luz do dele neste particular. O que há de mais importante para mim ele sequer crê que exista!

Neste ponto sempre haverá opiniões divergentes. Ele é muito respeitoso com o cristianismo, entretanto, nos poucos textos em que ostenta seu ateísmo, não me serve, e estes artigos descarto.

Mas não abrirei mão da importância dos pontos de concórdia que tenho com ele, porque amplos e sem prejuízo do meu posicionamento.

Leio Olavo de Carvalho.

Do que hoje conheço sobre o pensamento conservador, devo quase tudo a Olavo de Carvalho. Há apenas um conservador a quem devo mais, Jakson Miranda, fundador deste portal e minha porta de entrada no conservadorismo, ainda na universidade.

Olavo é um brilhante intérprete e desmantelador da estratégia de esquerda. Tem méritos imensuráveis no desvelo das mazelas mais nefandas dos comunas. É base intelectual fundamental para qualquer um que se nomeie direitista brasileiro.

Mas não concordo com Olavo em tudo.

E nem acho que deveria. Se discordo eventualmente das pessoas mais importantes da minha vida, como minha esposa, meus pais e amigos mais chegados, porque não discordaria dele também numa coisa ou noutra?

Discordo, por exemplo, de praticamente tudo o que Olavo diz sobre o protestantismo. Esta parte de sua obra não me serve. Passo ao largo dela. Degluto seus escritos sobre o conservadorismo com ardor. Suas visões religiosas distam das minhas e, ciente disso, não perco meu tempo com elas, ignorando-as com meu melhor… digamos… desdém respeitoso.

Não vou abrir mão, porém, do que há de ímpar em Olavo por causa do que não me serve, já que a distinção é possível.

Não obstante, Constantino e Olavo estão às turras.

Alguém acha mesmo que eu, que não tenho nada a ver com o peixe, preciso tomar partido de um e desprezar o outro?

Não tenho nada com isso. Os dois estão do mesmo lado que eu. Só o que posso fazer é lamentar o atrito que os segrega.

E sigo, gostando e aprendendo com os dois.

Outro rompido com Olavo é Julio Severo.

Conheci Severo através do Mídia sem Máscara. Portal ligado ao próprio Olavo.

Considero Julio Severo um importante opositor – no Brasil um dos maiores – à estratégia de dominação gayzista. Estudei este tema com afinco há quatro anos atrás e continuo tentando me manter a par de todos os movimentos deste enxadrismo perverso.

Julio Severo é fonte indispensável para quem busca entender o volume de perversidade que se esconde atrás de bandeiras caras à esquerda, como homoerotização da sociedade e aborto.

Também considero mencionável seu trabalho de dissecação da perigosa Teologia da Missão Integral.

Porém, como não poderia deixar de ser, tenho divergências com Severo. São principalmente referentes ao campo teológico e ao modo como aborda algumas nuanças do meio evangélico. Nada que me faça desconsiderá-lo como irmão de fé, nem nada que me faça repudiá-lo.

Pego o que me serve, o que não serve descarto.

Não preciso comprar brigas que não são minhas, nem ter a empáfia de exigir dos outros que pensem, o tempo todo, sobre tudo, do mesmíssimo modo que eu!

Valorizemos o que nos une.

Não acompanho mais Reinaldo Azevedo como antes, mas creio que ele não se enquadra no que busco enfocar aqui. Reinaldo não é direitista, é antipetista, ou, mais precisamente, tucano. Aversão ao PT é a única questão que nos aproxima, em comparação a um oceano que atualmente nos dista. Quando o PT colapsou e o PSDB colocou as manguinhas centro-esquerdistas de fora, Reinaldo agarrou em sua saia e foi de carona. Fez a sua escolha.

Guardarei com carinho os dois livros autografados que tenho e os relerei com a nostálgica dor no peito do que era para ter sido e se desfez, já que, não nego, acho Reinaldo um exímio escritor.

Mas não o enquadro mais na direita.

Poderia estender esta lista por páginas e páginas, poderia abordar os que já morreram e os que estão se destacando agora. Poderia prosseguir o suficiente para você se cansar de ler antes de terminar.

Mas o fato é que seria mais do mesmo. Eu demonstraria, caso a caso, que para formarmos uma direita robusta e coesa, precisamos coligar nossas concordâncias e desprezar os pontos de atrito.

Não concordaremos nunca com tudo o que vem de outrem. Mas se almejamos uma solução conservadora para o Brasil, essas picuinhas precisam ser sanadas.

Mas como já escrevi num artigo anterior. Nossa direita é autofágica.

Estamos fazendo oposição a nós mesmos.

Por Renan Alves da Cruz 

 

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2 comentários em “A direita que faz oposição a si mesma”

  1. Se você analisar o que você disse, você vai ver que você está comendo na mão do Olavo. Você discorda dele em questões bíblicas porque você tem CONHECIMENTO suficiente para discordar. Nos assuntos geopolíticos, você sente que não tem do que discordar, pois você não tem conhecimento e se sente na obrigação de bajular o Olavo como um mente superiora à usa (“Se ele sabe e eu não sei, então ele está certo e tenho de comer da mão dele.”). Cuidado: se ele não consegue te fisgar pelo lado teológico, ele te fisga pelo lado geopolítico. É inúmero o número de evangélicos que se converteram ao catolicismo esotérico deLe ATRAVÉS DA DOUTRINAÇÃO GEOPOLÍTICA. Dou-lhe uma amostra de como falta honestidade a ele em assuntos políticos também. Veja: http://bit.ly/2cidHFB

    • No artigo apresento pontos de discórdia e concórdia com o Olavo, com o Constantino e com você, Júlio. Se fosse assim, então teríamos que constatar que estou “comendo na mão” dos três… A estrutura argumentativa foi a mesma a todos.
      O ponto a ser considerado é que, o fato de haver quem considera o Olavo inerrante não torna todos aqueles que reconhecem importância no trabalho dele compartilhadores desta premissa. Acho que é possível ter discernimento para desfrutar do amplo conhecimento do Olavo sem compartilhar das opiniões dele sobre a Reforma Protestante e sobre a Inquisição, por exemplo. É óbvio que o Olavo é mais culto do que eu, mas creio ter adquirido senso crítico para conseguir dosar os pontos em que o trabalho dele tem valor pra mim e os pontos que não tem serventia. É exatamente a mesma régua que uso, e que indiquei no artigo, em relação ao seu trabalho, do Constantino, do Pondé, e etc…

      Entendo que sua ruptura com o Olavo é algo, aparentemente, irreversível, e embora preferisse que tudo fosse sanado, consigo extrair algo de positivo neste antagonismo. Ao oferecer contrapontos às visões do Olavo, você ilumina equívocos que ele, como ser humano falível, comete, como creio ser o caso da Inquisição…, o que não elimina o fato de que em algumas dessas contendas em que vocês se contrapõe, eu dê razão a ele.

      Acho, Julio, que você também precisa considerar que nem todo mundo que lê Olavo o considera uma deidade inerrante. Sei que alguns podem considerar, mas não são todos, e me considero afortunado por conseguir filtrar estas questões e me alimentar do conhecimento de todos vocês, mesmo que rompidos entre si.

      Um grande abraço

      Renan Alves da Cruz

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