Digressões sobre a esquerda adolescente a partir de Salinger

Protelei a leitura de “O Apanhador no Campo de Centeio” por anos. Ciente de sua canonização como obra fundamental do século XX, sempre o considerei uma leitura necessária, não obstante, quando o tomava nas mãos e lia as duas primeiras páginas, não me encantava a continuar. Parecia tão raso, superlativado pelo despojamento de linguagem numa época em que isso ainda não era regra (embora não incomum, dado que a escola hard boiled do policial americano estava em seu auge).

Não tê-lo lido durante a adolescência, período abordado na obra e, em geral, a idade recomendada para sua leitura, também pesava no adiamento. Ademais, nos últimos dias, por ser uma leitura curta, despreguicei-me e resolvi encará-lo entre duas leituras mais densas.

A leitura foi rápida, e embora não figure entre os meus preferidos, compreendo seu impacto e importância, tendo em vista que sua primeira publicação é de 1951, e desde então tem permanecido relevante.

O livro contempla um fim de semana na vida de Holden Caulfield, um adolescente de dezesseis anos que deixa a escola alguns dias antes da liberação oficial por saber que reprovou em praticamente todas as matérias. Ciente de que terá que encarar os pais com a “boa nova”, atrasa sua chegada, procurando velhos conhecidos e interagindo com novos que cruzam seu caminho.

O cerne da obra, no entanto, é a estrutura mental adolescente. A fluência atropelada de vários pensamentos entremeados, a convicção definitiva de um instante que se torna seu oposto logo em seguida, a incompreensão das próprias atitudes, a crença na autossuficiência logo substituída pela carência, a jactância de se considerar autodidata em tudo freada pela incapacidade de materializar suas vontades. Holden está sempre correndo, embora tente transmitir que está calmo. Está sempre à procura de alguém, embora acredite que se baste.

Salinger, que, involuntariamente ou não, fez de sua firme reclusão, um marketing eficiente, encontrou um vão no espaço literário e o preencheu. O espaço entre o infanto-juvenil e o adulto.

A construção psicológica do adolescente por Salinger, não pude evitar divagar, explica o sucesso da propaganda esquerdista entre os jovens. Por mais que eu concorde com Nelson Rodrigues e considere que o melhor conselho a um jovem é envelhecer, não desprezo a faixa etária por completo. Há jovens de boa índole, que sonham em fazer carreira profissional e não carreiras de cocaína, que demonstram cedo a capacidade de discernir entre o puro e o roto.

No espectro amplo, porém, é a idade mais crível para o funcionamento do tal “discurso revolucionário.” Quando não se tem ainda elementos intelectuais para compreender que a lógica “igualitária” do esquerdismo esbarra na realidade e que “justiça social” não é justiça; se justiça fosse, seria justa, com o perdão do abusivo uso da obviedade.

A busca por enquadrar-se num mundo imperfeito e dar sentido à própria existência, numa realidade que comete a indignidade de não ser completamente como se deseja, tentando ser autêntico e inflexível num mundo diplomático, o vulnerabiliza. O engodo cola fácil. O mundo é imperfeito e mal. Uns têm, outro não. Tudo precisa ser mudado, quem não concorda não faz parte do time cool. É preciso condenar o consumismo, mesmo doido de vontade de consumir tudo aquilo!

A culpa é do capitalismo, do cristianismo, do patriarcado. Se quer ser um de nós não pode ser um deles. E vice-versa.

Agrupa-se então uma militância, que junto dos assalariados e do pessoal da mortadela, fazem um bom barulho.

À maioria o tempo traz a razão, mas até lá, são idiotas úteis da causa.

Outros percebem que continuar é mais rentável. Que alguém precisa gerenciar os insumos. A ideologia traveste o intento de se locupletar.

Mas aí, já passaram e muito a idade de Holden. Salinger não os explica mais.

Ou sofrem de adolescência tardia. Bem tardia.

Boulos, por exemplo, tem mais de 30. Sininho, quase isso.

Ps. 1  Recomendo a leitura da obra pelos motivos elencados, entretanto, genial mesmo, digno de aplausos, considerei o sentido do título. Se algum leitor curioso tiver, assim como eu, protelado a leitura, e quiser saber porque o livro sobre o fim de semana de um adolescente se chama “O Apanhador no Campo de Centeio”, não serei eu que estragarei sua surpresa. Mas garanto que a definição “paga” a leitura toda.

Ps. 2 Procurem, no entanto, edições mais novas. Por ser um livro repleto de gírias e expressões mais livres, as traduções mais antigas são falhas.

Traduções destruíram mais livros que o Index e este é um caso em que as mais antigas deixam uma marca cicatricial na leitura.

 

Por Renan Alves da Cruz 

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2 comentários em “Digressões sobre a esquerda adolescente a partir de Salinger”

  1. Eu li o livro eu achei a revolta do adolescente muito tola, ele reclamava do cinema, mais ia sempre!!! Reclamava de tudo, não pensava nas consequência das suas atitudes, eu não indicaria para nenhum adolescente!!! Só deixaria mas revoltados.

    • Acho que esse é o ponto interessante. O modo como a revolta adolescente é ilógica. Nos esquerdistas, no entanto, isso se torna contínuo…

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