Conservar, reagir ou revolucionar?

Ser feliz. Viver bem. Pode-se dizer sem medo de errar que, de alguma maneira, pessoas sempre buscaram isso. Pessoas buscam isso.

Na tradição filosófica da Grécia Antiga, esse desejo por querer viver bem aparece explicado e com boas dicas práticas na obra de muitos epicureus e de estóicos. Essa tendência chega a Roma, sendo Cícero e o imperador-filósofo Marco Aurélio os mais conhecidos. Esses conselhos ganham o mundo e aparecem aqui no Brasil também.

A moderna literatura de auto-ajuda, a despeito dos capítulos chochos e repletos de clichês, tem, ao menos no Ocidente, origem remota nessa tradição.

Seguindo por esse caminho, recentemente entrei em contato com o bom livro chamado “A arte da prudência”, de Baltazar Grácián. Com a obra, Gracián se insere também na tradição de Cícero e Marco Aurélio.

Gracián, escrevendo no século XVIII, traz muita observação da vida e conselhos práticos sobre o bem viver e o ser feliz, o que igualmente o aproxima da sabedoria hebraica.

Escrito em forma de aforismos – ditos curtos, objetivos, bem montados sintaticamente e de grande impacto sobre a inteligência -, o livro se destaca no terreno hoje pantanoso da auto-ajuda.

Um dos aforismos Gracián chama de “ser prático na vida”. Nele, nosso autor trata de conservar, reagir e revolucionar. Diz Gracián:

“O gosto da multidão é decisivo em quase tudo. Deve ser seguido, ao mesmo tempo que se aspira ao aperfeiçoamento.”

À primeira vista tal dito pode soar mal, até para conservadores. Tento explicar. Quando li esse aforismo, lembrei de imediato do excelente livro de João Pereira Coutinho “As idéias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários”, em que ele expõe com clareza a diferença entre ser conservador e ser reacionário, nem sempre bem entendida, seja por conservadores, seja por revolucionários.

Como curiosidade, tenho a impressão de que o escritor brasileiro Olavo de Carvalho se vale da linguagem consagrada de mestres do conservadorismo sem lhes dar, em certas ocasiões, o devido crédito. É apenas uma impressão; posso estar errado.

De regresso a Gracián e a seu aforismo, verifico a sabedoria desse autor:

“O gosto da multidão é decisivo em quase tudo. Deve ser seguido, ao mesmo tempo que se aspira ao aperfeiçoamento.”

Ou seja, na esteira de Gracián está Coutinho e outros conservadores como Roger Scruton, que parecem dizer o mesmo: não é possível hoje viver exatamente igual a qualquer grupo do passado que se admire e se tenha por referência (reacionários) – nesse sentido a obsessão de Olavo de Carvalho por restaurar a religião romana indica postura de reação; por outro lado, não dá para destruir tudo o que se tem na sociedade e começar do zero (revolucionários), mas dá para fazer mudanças e melhorar muita coisa, sem deixar de observar o legado dos antepassados (conservadores). E aqui, repito Gracián:

“O gosto da multidão é decisivo em quase tudo. Deve ser seguido, ao mesmo tempo que se aspira ao aperfeiçoamento.”

Saber manter e saber modificar. Eis a prudência nesse quesito.

Em outras palavras, nem reagir nem revolucionar; conservar. Penso que assim viveremos bem e seremos felizes.

 

Por Pastor Marcos Paulo

 

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