Quando os conservadores se apaixonam… @mor

Se apaixonar é uma das mais fascinantes experiências da vida.

O amor torna o covarde destemido, aquieta o loquaz, silencia o espalhafatoso, traz lágrimas à face do empedernido.

Há amores eternos que duram cinco semanas e amores de verão que duram a vida inteira.

Nada nem ninguém explica o amor, por mais sábio que seja, ainda que fale as línguas dos homens e dos anjos.

Cada pessoa tem sua própria história de como se apaixonou, de como conheceu aquela pessoa que seria seu último pensamento antes de dormir e o primeiro ao acordar, aquela pessoa rememorada logo ao primeiro suspiro do raiar de um novo dia. Aquela pessoa em que pensamos antes de pensarmos em nós mesmos.

A literatura muitas vezes tratou o amor com sua merecida profundidade… entretanto, confesso que prefiro uma abordagem que enfatize sua simplicidade. Sim, claro que o amor é profundo… é um sentimento tão envolvente que às vezes se torna quase tátil de tão concreto, mesmo que sendo sentimento não pode ser nada mais que impalpável.

Mas retirar do seu volumoso compêndio de mistérios simplicidade é uma tarefa mais digna de aplausos, pelo simples motivo de que o amor se principia em métodos simples.

O mais complexo e vistoso dos sentimentos é, sim, simples.

Esta longa e melosa digressão sobre o amor tenciona ser a introdução de mais uma recomendação literária. Tenho outras aqui no Voltemos à Direita. Já escrevi num artigo aqui que nunca deixo de ler literatura, não importa quão importante seja uma outra leitura ou estudo, sempre dou um jeito de encaixá-la em minha rotina sem deixar de ler literatura.

E tomo tal atitude por acreditar no poder vivificante da literatura. Escrevi neste mesmo artigo que ensaio para a vida lendo livros, e esta parece ser a melhor e mais sábia decisão que já tomei.

Este caminho proporciona a leitura de bons livros, livros ótimos, alguns até mesmo esplêndidos e um bom tanto de outros ruins.

Após tanto tempo, no entanto, poucos… bem poucos oferecem algo surpreendente.

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Com nenhuma expectativa especial consultei minha fila de leituras e havia um livro chamado @mor, de Daniel Glattauer, assim mesmo com uma @ no lugar do “a”. Minha fila de leitura está maior que a do SUS, de modo que leio hoje livros listados sabe lá há quanto tempo. Mas por algum motivo eu o havia inserido e, como para fila de leitura tenho TOC, agora teria de encará-lo.

A primeira impressão era a de que seria uma jornada inapreciável. O livro tinha capa cor de rosa, cara de livro meloso e se chamada @mor… Parecia o mais feminino dos livros de menininha… Nem Chick Lit, mas romance água com açúcar mesmo. Abri o livro tendo certeza de que não conseguiria chegar ao final.

Ademais, os velhos clichês gostam de dar rasteiras justamente naqueles que caçoam deles: Eu não deveria ter julgado o livro pela capa.

Que livro delicioso e criativo é @mor!

Primeira coisa: é um romance epistolar… ou quase… O livro todinho, todinho mesmo, é escrito através de e-mails. Pode parecer besteira, mas te garanto que não é. Não há narrativa, nem diálogos diretos, apenas e-mails escritos. Emails não são narrações, não são conversas, não são nem cartas… E você só consegue perceber o talento de Daniel Glattauer para realizar tal façanha sem recair no ridículo quando já leu mais de uma centena de páginas desta troca de e-mails e não consegue soltar o livro, querendo saber no que aquilo vai dar.

Matei Visniec disse que um escritor tem que assumir alguns riscos, inclusive o de acabar soterrado debaixo do próprio edifício de seu romance. A estratégia de Glattauer era um caso típico de uma escolha metodológica que parecia fadada ao fastio. Sem ler o livro, a ideia de lê-lo todo sabendo que são trocas de e-mails pode passar esta impressão, de que se tornaria algo maçante.

E por isso Glattauer vence: porque não se torna. Pelo contrário. O texto é dinâmico, fluido na medida certa.

Não há fórmula para o surgimento de um amor, com seus prós e contras, suas dúvidas e inconstâncias. O amor pode nascer de uma atração física. Há quem diga que estes são os menos duradouros, outros, alegam que tal precondição é garantidora de durabilidade…

@mor vai mais além. É possível uma pessoa se apaixonar por outra sem jamais tê-la visto, nem sequer por foto?

De maneira cínica, gostosamente cafajeste, Glattauer dará seu veredicto a respeito, usando para tal o ponto de vista de seus bem construídos personagens. O olhar feminino e o masculino se entremeando nas trocas de e-mails que cimentam um sentimento que se mostrará tenso, exigente e dúbio.

@mor é um livro, digamos, do gênero e-epistolar. É um singelo tesouro elaborado a partir de uma premissa inovadora, que pega o leitor desavisado e o deixa enredado em sua trama que não é mais nem menos que o Amor em sua amplitude inexplicável.

Por Renan Alves da Cruz

 

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