Como melhorar a educação brasileira (V): Os problemas são insolúveis?

Se nos artigos anteriores abordamos a desnecessidade de aplicar inovações mirabolantes na educação pública brasileira, começamos a partir de agora a debater o segundo aspecto levantado no primeiro artigo desta série: Os profundos problemas educacionais brasileiros são insolúveis?

Começaremos agora a desmistificar esta premissa, repetida muitas vezes, e, como pretendemos demonstrar, de maneira infundada.

É necessário, antes de qualquer coisa, reconhecer a situação devastadora do sistema público de ensino brasileiro. Como já manifestei anteriormente, sou ex-professor da rede pública e, mais do que verborragias pedagógicas, pretendo fazer deste trabalho um campo analítico a partir do que vivenciei na prática.

Falaremos sim de pedagogia mais à frente, do senhor Paulo Freire e de sua inequívoca responsabilidade ante a situação, ademais, o propósito aqui não é desfilar bibliografia, mas sim, oferecer soluções práticas e aplicáveis, a partir da experiência adquirida no trato diário com o problema.

Assim, friso que reconheço o nível de desgaste de um sistema urdido para minar o talento e desestimular o aluno produtivo, numa estrutura que, como abordamos nos artigos anteriores, retirou a autoridade do professor e desabilitou o viés meritocrático das avaliações.

O problema, é claro, se agiganta na proporção em que a maioria dos professores que atuam junto aos estudantes, ao invés de instrumentos de ensino, se tornam indutores doutrinários, repetindo ladainhas de atraso, incutindo conceitos de elitismo e servilismo que, depois de incrustrados, retiram do aluno o senso de responsabilidade individual.

Somamos a isso o desleixo dos governos, a má aplicação da verba destinada (afinal, não falta dinheiro, falta gerenciamento apropriado da fortuna que é desperdiçada no ralo do ensino brasileiro), o sindicalismo chulo e retrógrado, e o caldeirão efervesce, rescendendo à merda obtida.

Entretanto, o maior erro que aquele que se propõe a endireitar esta barafunda pode cometer é ceder ao enredamento daqueles que, por interesse na manutenção do atual estado de coisas ou mesmo inocência pouco inteligente, bradam a impossibilidade de reversão do quadro.

A situação é mutável. Na verdade, o mais revoltante é a constatação de que as mudanças necessárias, em certas instâncias, exigiriam não mais que o cumprimento das leis existentes.

Muita coisa, por outro lado, se aprumaria com a desburocratização do sistema público. Situações que oferecem facilidade de solução acabam ganhando proporções diluvianas nas mãos de um estado paquidérmico no tamanho e na lentidão.

Há problemas na gestão administrativa e pedagógica da educação, na formação dos profissionais  atuantes e na desleal estabilidade, que, na verdade, quando escudada pelos sindicatos, transcende o conceito de estabilização, ganhando um status de permanência sem a exigência de contrapartidas. Há problemas de má gestão financeira e aberrações logísticas.

Há problemas originados por diretores, coordenadores, pais relapsos, pais mimadores, professores ruins, professores vagabundos, professores doutrinadores… etc…

Mas há talento. Quando lembro de que Albert Einstein trabalhou numa repartição pública, penso em quantos professores talentosos estão tendo suas carreiras desperdiçadas, refestelados em sua estabilidade perpétua, tramando formas mirabolantes de assinar o ponto fora do horário sem serem incomodados.

Os problemas podem ser resolvidos. Não do dia para a noite, nem por uma única pessoa ou categoria. Não com apenas força, muito menos com a recorrente frouxidão com que nos acostumamos no trato deste assunto.

No próximo artigo afunilaremos a conversa.

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Por Renan Alves da Cruz

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