A bruxa, o fervor e o diabo

A opacidade visual do filme A Bruxa (The witch, Eua, 2015), é uma daquelas transcendências artísticas que só fazem sentido quando percebidas, nunca quando apenas descritas. É aquela rara oportunidade em que a linguagem técnica e a moldura refulgem o conteúdo.

Criar uma atmosfera de época, desde que se possua um figurinista competente, não é uma tarefa hercúlea. Hollywood o faz com inimitável competência. Principalmente em roteiros que privilegiam o ambiente requintado da nobreza.

O diferencial de A Bruxa é possuir uma atmosfera que suplanta a mera caracterização física e de vestuário dos personagens. Para um filme de terror esta construção tem peso triplicado e oferece grande sustentação à trama.

Pode-se elogiar A Bruxa com o reconhecimento de que é um bom filme de terror.

Entretanto, pode-se fazer melhor. É um bom filme e ponto. Sem a necessidade de incluir o gênero no predicado.

É o séc. XVII e a família de William, expulsa do vilarejo por seu excesso de fervor religioso, se estabelece rente à floresta. A colheita é perdida e a vida se torna dura. William, a esposa e os cinco filhos vivem de modo frugal, rogando a Deus incessantemente, pedindo perdão por seus pecados.

A vida da família vira do avesso quando o bebê, sob os cuidados da filha mais velha, Thomasin, desaparece.

A mãe fica devastada. William e o filho Caleb, após a busca infrutífera, presumem ter se tratado da ação de um lobo.

Porém, a sucessão dos acontecimentos demonstrará que a floresta abriga o mal.

E o mal, no séc. XVII, para cristãos fervorosos como William e sua família, é o diabo.

E as bruxas, que lhe venderam a alma e, por isso, são capazes de desafiar o mundo físico pelo poder que lhes foi concedido.

Assista A Bruxa e atente-se ao cimento lógico implantado pelo diretor Robert Eggers. O mal ganha a roupagem fornecida por quem o teme. A obra trabalha com a materialização dos temores de uma era, ciciando e seduzindo, como se, a cada um, arrulhasse suas promessas e consequências.

O trunfo do filme é ser capaz de ir além do mero objetivo de assustar. Diferenciando-se de outros da mesma seara, não entulha a crônica de pavores esquálidos. A história apara arestas e preenche lacunas, até o clímax surreal, que, concluindo toda o constructo, revela em seu visual mitológico, o que se temia no séc. XVII.

Volto então aquela opacidade do início desta crítica, que não se desfaz em instante algum, entremeada pela bela trilha sonora, ora claustrofóbica, ora, amedrontadoramente, silenciosa.

Ambientação que dá sentido a tudo.

 

Por Renan Alves da Cruz 

Um comentário em “A bruxa, o fervor e o diabo”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *