Breaking Bad: Walter White não, Heisenberg!

Série Breaking Bad para conservadores – Texto 4

A dualidade Walter White / Heisenberg é uma das coisas mais primorosas da ficção recente. A atuação de Bryan Cranston é ímpar e consegue conceder peso dramático às implicações intrínsecas ao fato de que o pacato professor de química se embrenhou numa floresta de densas trevas e o homem que saiu do outro lado havia mudado.

(CONTÉM SPOILERS)

Quando descobre o câncer, Walter começa seu torneio de carteado com a morte. Seus freios morais estão gastos. A vida o traiu.

Começa então a grande virada.

White resiste um pouco, mas a grande verdade é que está começando a curtir o florescente gangsterismo. A reticência inicial começa a dar vazão a uma expressão mais firme e assoberbado. Se antes, quando se olhava no espelho se sentia tal qual um masturbador de bebês, a consolidação de sua estratégia produtiva de metanfetamina lhe concede um hausto fresco de oxigênio vivificante.

Walt sabe que pode até perder o torneio de cartas com a morte, mas na rodada atual, no truco, ele tem o zap.

Jesse Pinkman é o passaporte de entrada, mas não pensa grande. É tolo, imaturo e se contenta com pouco. Walt cansou de se contentar com merrecas a vida toda. Se lhe resta pouco tempo, que sejam tempos áureos, e se terá que manter Pinkman agastado ao seu negócio, ele terá que entender que Mr. White não quer mais ser peixe pequeno.

Mas Walter White não é ninguém, e sabe disso, e sabe também que nunca será. É preciso alguém mais forte, mais homem, mais impetuoso, mais implacável.

É preciso um Heisenberg.

Walter White é um homem de família, acomodado, tentando concluir dignamente suas responsabilidades suburbanas, tolerando uma mulher irritante e o desprezo do filho, que o considera um fraco.

Um homem doente, achacado de suas últimas forças pela quimioterapia.

Por isso que ele precisa de Heisenberg.

Walt raspa o cabelo, antes que a maldita quimioterapia tome esta decisão em seu lugar. Cranston oferece feições mais firmes após o serviço da navalha, perdendo a expressão apatetada inerente ao velho Walter White.

Heisenberg possui uma careca testosterônica. É um gangster.

Nessa condição percebe a necessidade de contatar algum importante distribuidor. Manda Jesse, o menino Jesse, conseguir fazer essa ligação. E é claro que Pinkman não tem traquejo para algo de tamanha grandeza. Chega diante do traficante Tuco porejando fraqueza e acaba no hospital.

Heisenberg, o cabeça da nova operação, terá que assumir a negociação.

E Tuco, embora psicopata, sabe que não pode abrir de um produto daquela qualidade, com uma pureza nunca vista antes.

A cena definitiva da 1ºtemporada é a ida de Walt ao quartel general do traficante para pegar o que lhe pertence: o dinheiro da droga que Tuco roubou de Jesse.

Mas quem entra não é Walt, é Heisenberg…

E Heisenberg pode não ser experiente no ramo, mas não tem mais nada a perder.

Quando sai com o que lhe pertence, a verdade fica clara. Aquilo vai acontecer. É de verdade, é para valer.

Ser Heisenberg, um fora da lei, é tão importante para Walt que a partir do momento que assume essa personalidade, a quimioterapia deixa de afetá-lo.

 

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Por Renan Alves da Cruz 

 

 

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