Breaking Bad: O proibido é mesmo mais gostoso?

(Contém Spoilers)

No último artigo demonstramos o brilhantismo da sacada do roteiro de Breaking Bad, que não vitimiza Walter White, mas lhe fornece alternativas para encarar o tratamento contra o câncer sem ter de recorrer ao crime.

Fabricar metanfetamina é uma escolha de Walt, que como o seriado demonstrará, transcende o quesito necessidade.

Quando decide produzir drogas para pagar o tratamento, Walt abandona a vida sob a estrutura da legalidade, partindo para um momento de experimentação.

Viver como um professor de Ensino Médio subvalorizado, que precisa completar a renda num Lava Rápido, dentro dos estritos limites da lei e da ordem, além de não lhe proporcionar conforto financeiro suficiente, lhe trouxe de troco um câncer descoberto num estágio intermediário, cujo tratamento quimioterápico é doloroso e repleto de efeitos colaterais.

Pode ser que pouco tempo lhe reste, e agora ele quer jogar o jogo sob novas regras.

A nova roupagem de Walter White começa a ser desvelada no episódio 7, penúltimo da 1ºtemporada. Numa reunião escolar, Walt, no auditório lotado, começa a acariciar Skyler por baixo da mesa. A brincadeira termina no carro mesmo, do lado de fora da escola.

Skyler, surpresa, diz que aquilo foi muito bom.

Walt não tem dúvidas sobre o motivo: foi bom porque era proibido.

Algo ser bom porque é proibido é um dos maiores clichês humanos vigentes. Não apenas no cinema e na literatura, mas no próprio fabulário cotidiano. É a premissa que sustenta noventa por cento da movimentação sexual de uma sociedade extremamente “sexocêntrica” como a nossa.

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O “gostinho do proibido”, o “sabor da coisa errada”, sempre surge como justificativa da traição, como uma propensão da qual não se pode fugir.

É até uma herança edênica. Eva não conseguiu conter-se ante a tentação de provar do fruto, só porque sabia que não lhe era permitido.

O Gênesis contém outro interessante trecho que pode ser evocado. Antes de matar Abel, Caim recebe uma espécie de alerta de Deus, que lhe diz: “se não fizeres (o bem), o pecado jaz a porta, e o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” (Gn. 4.7)

Caim, no entanto, não foi capaz de dominar seus próprios desejos. E tantos de nós também não conseguimos. Podemos manter algumas coisas dentro do limite daquilo que presumimos como correto, mas em algumas ocasiões não conseguimos tolher nosso instinto, cuja inclinação ao mal evidente é perceptível no mal geral gerado pela soma de nossas atitudes enquanto seres humanos.

Sigmund Freud lidou com esta questão com os conceitos de ego, id e superego, onde o id representa este nosso lado instintivo, primitivo. É o nosso lado governado pelo “Princípio do Prazer”, que deseja realizar as próprias vontades custe o que custar.

Quem contém os impulsos do id é o superego, que funciona como um freio moral às ações instintivas que o id anseia. O superego é construído pela sociedade, que mantém padrões que balizam o que pode e o que não pode ser feito, contendo alguém de realizar sempre tudo que lhe der na veneta.

Cabe ao Ego equalizar estas duas forças antagônicas e tomar as rédeas, sendo o entreposto entre um e outro, governando nossas ações de forma a que conciliemos id e superego à realidade, não pendendo demais a nenhum dos lados.

Não sou um entusiasta freudiano, mas estes conceitos são interessantes para demonstrar a mudança que acontece em Walt. A descoberta da doença, suas consequências e a análise do que havia feito e conquistado até ali, fazem com que o id passe a prevalecer em seu senso de tomada de decisões, mesmo que alguns dos propósitos não sejam inteiramente egoístas, Walter White mudou o foco do seu padrão. Não considera mais necessário tanto empenho em dominar seus desejos, já que a vida não esboça grandes propósitos à frente.

E como o Sr. White é um homem metódico, meus caros, se é para driblar a lei, ele o fará para valer.

No próximo texto, falaremos um pouco sobre a transformação de Walt em Heisenberg.

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Por Renan Alves da Cruz 

 

Artigo publicado em 25/10/2018

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Um comentário em “Breaking Bad: O proibido é mesmo mais gostoso?”

  1. Amei, ficarei no aguardo das novas postagens ^^

    E fiquei também com um grande carrapato (não, não é uma pulga) atrás da minha orelha, vou passar o resto da noite fazendo auto-avaliação agora (risos).

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