Breaking Bad: As motivações de Walter White

Série Breaking Bad para conservadores – Texto 2

Cá estamos novamente para tratar da melhor série de TV do século XXI.

Se você não leu o texto anterior, uma espécie de introdução a esta série de artigos sobre Breaking Bad, clique em O que há de tão especial em Breaking Bad?

Terminamos o artigo anterior com uma definição do motivo, na opinião deste que vos escreve, do sucesso do seriado.

Começarei a discorrer aqui sobre o seriado de modo a desembaraçar a opinião lá expressa.

(CONTÉM SPOILERS)

A primeira temporada de Breaking Bad não congrega ainda todos os elementos que a transformarão num fenômeno cultural transgeracional, como a rotulei. É a temporada que mais elucida o estilo de vida de Walter White em contraposição a Heisenberg.

White é um professor de química e está de saco cheio. Ganha pouco. Ninguém presta atenção ao que ele faz ou diz.

Para complementar a renda, faz um bico de caixa num lava-rápido. Numa das cenas mais icônicas da primeira temporada repreende um aluno mala durante uma aula, depois vai para o lava-rápido. O proprietário avisa que um dos lavadores faltou e manda White ajudar na área das lavagens. Quando ele chega para lavar, é exatamente o carrão do aluno arrogante, que está com a namorada, e Walt tem que lavá-lo, enquanto os dois fazem questão de viralizar a novidade pela escola.

Walter White se sente humilhado. Vive o que considera uma vida de merda. Vive às turras com o passado, sem conseguir lidar com o fato de que seu antigo colega de quarto da faculdade ficou rico com um projeto em que eram sócios, além de ter se casado com sua antiga namorada.

Skyler, sua esposa, é apalermada e chata. Suas ideias de integração familiar são um apanhado insosso de técnicas de auto-ajuda de quinta categoria, que mantém Walt e seu filho Walter Jr, que possui paralisia cerebral, em estado contínuo de tédio e enfado.

A guinada na vida de Walt acontece quando é convidado para acompanhar uma batida policial com Hank, seu cunhado. Hank é policial do DEA, uma divisão antidrogas. Enquanto a polícia invade um local que servia de laboratório de fabricação de metanfetamina, Walt, do lado de fora, topa com Jesse Pinkman fugindo.

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Jesse é um ex-aluno seu que era péssimo em química.

E mesmo assim, está ganhando grana boa… fabricando drogas através de um processo químico.

Walter então descobre que está com câncer no pulmão. Seu plano de saúde não cobre o tratamento. Precisa de dinheiro graúdo e rápido.

O antigo colega de quarto da faculdade se oferece para pagar o tratamento, atendendo um pedido de Skyler, a lorpa.

Walter White diz não.

E este é um momento crucial.

Aqui está a linha de escolha de Walt, de partir para o crime ou se manter dentro das balizas permitidas da lei. É o momento entre escolher para que lado seguir, e neste ponto Breaking Bad quebra a narrativa sempre presente nos filmes e séries de Hollywood, e também nas novelas brasileiras, de considerar o crime sempre uma consequência inelutável das “mazelas” a que se está submetido.

Não quero fugir muito do tema, mas pegue por exemplo uma série como Orange is the New Black, em que o ambiente é prisional e as histórias das prisioneiras são mostradas em flashes. Perceba que a prática delituosa sempre é demonstrada como resultado de uma condição extrema da qual não se pode fugir, como consequência de uma estrutura maior, não pessoalizada, externa, contínua, que as torna marionetes. O ente abstrato destrutivo, “o sistema” é o culpado por tudo, tendo praticamente as obrigado ao crime.

Breaking Bad não se dobra a esta militância raquítica, demonstrando que Walter White não se torna um produtor de metanfetamina porque as vicissitudes da vida o empurraram a uma situação inarredável. Walt, mesmo sem o amigo rico, poderia ter enfrentado a situação. Skyler, mesmo que irritante, elenca possibilidades de economia que possibilitariam a realização do tratamento.

Walt não aceita porque crê que não vale a pena gastar tudo no tratamento, correndo o risco de morrer ainda assim, deixando a família desprotegida.

O oferecimento do amigo para pagar o tratamento vem como um bônus. É a possibilidade perfeita. Não altera suas economias. Só mexe com o orgulho. Mas o que é o orgulho diante de uma doença mortal, que se não for combatida rapidamente, o matará?

Walter White pôde escolher. Não ingressou no crime forçado por uma situação, como única forma de salva sua vida. A oferta é o reforço do roteiro a esta questão. A prova de que não quiseram recorrer ao catastrofismo esquerdista de legar à sociedade como um todo os desvios de conduta que são de cunho individual.

Walter vai lutar contra seu câncer, mas não vai aceitar esmolas de nenhum talarico. Ele pagará, e para isso, fará o que for necessário.

Porque um homem precisa fazer o que um homem precisa fazer.

O orgulho de Walter White, e o cansaço de uma vida pueril e sem sal, eram maiores do que os freios morais que o seguravam dentro dos limites da legalidade.

Ele decide produzir drogas para pagar o tratamento ao invés de aceitar o dinheiro.

Com isso, descobrirá a docilidade do sabor do proibido.

No próximo artigo da série “Breaking Bad” descobriremos se o que é proibido é mais gostoso.

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Por Renan Alves da Cruz 

 

Artigo publicado em 16/10/2018

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