Boca Juniors X River Plate: outra vergonha que poderia ter sido evitada. Vamos fazer como Margaret Thatcher?

Deplorável o que ocorreu no estádio La Bombonera na última quinta feira, no maior clássico argentino, em partida pela Taça Libertadores.

Torcedores do Boca Juniors jogaram gás de pimenta no túnel de acesso da equipe rival, no retorno do intervalo, atingindo jogadores e impossibilitando a continuidade do jogo.

boca river

As cenas foram de uma selvageria desmedida. Jogadores acuados dentro do campo, sem conseguir retornar aos vestiários, torcedores descontrolados arremessando o que tivessem em mãos contra os atletas, falta de preparo dos seguranças particulares do Boca Juniors para lidar com o conflito e policiamento insuficiente para arrefecer a confusão. (Na Argentina a polícia não é a responsável pela segurança dentro dos estádios, só no entorno).

O jogo foi suspenso e, até o momento, não foi divulgada a decisão definitiva da Confederação Sulamericana. Todos esperam uma punição digna ao Boca, também responsável pela balbúrdia. A responsabilização individual dos baderneiros é essencial, entretanto, o clube não garantiu a segurança do evento, permitindo que pelo menos um cidadão entrasse no estádio portando um spray de pimenta!

O que se vê no Brasil não é diferente. Torcidas organizadas marcam brigas pela internet, quebram estações de trem e metrô, matam desavisados que usam uma camisa diferente da do time que torcem. Cenas esdruxulas, como o arremesso de um vaso sanitário da parte superior de um estádio, já foram por aqui!

 

briga torcidas

Muitas vezes, se digladiam entre eles. Em tantas outras, põem em risco as vidas de pessoas alheias aos seus desequilíbrios.

Em 2013 um torcedor do Corinthians (time a qual eu mesmo torço) entrou num estádio boliviano com um sinalizador de navio (!), que disparou contra a torcida boliviana, matando um rapaz. Ninguém pagou pelo crime. A justiça boliviana encarcerou alguns torcedores pelo tempo que pôde, mas, sem provas, os soltou. Um dos detidos, dias depois de chegar ao Brasil, já se meteu em outra briga, com torcedores do Vasco, em Brasília.

Usando a cidade de São Paulo como exemplo. Toda vez que ocorre um clássico, há alguma ocorrência de briga entre torcedores. Algumas estações de metrô, como a Tatuapé, na Zona Leste, se tornam, áreas de risco extremo. Usar a camisa do time que você torce num destes dias pode ser uma distração fatal.

metro quebrado

Eu mesmo, já tive que me esconder dentro de uma agência bancária no centro da cidade, junto com um palmeirense, enquanto torcedores organizados do São Paulo Futebol Clube desfilavam pelas ruas da cidade. O trânsito de veículos, claro, foi desviado, para melhor servir Suas Excelências!

No Brasil e na Argentina a relação entre clubes de futebol e torcidas organizadas é simbiótica. As torcidas sobrevivem dos ingressos que ganham dos clubes e que revendem para seus associados, por metade do preço vendido nas bilheterias, e da venda de camisas e outros acessórios adornados com os escudos dos clubes, sem pagar royalties.

Na Argentina, as torcidas são ainda perigosas que as brasileiras. Enquanto no Brasil as ligações delas com o crime organizado são presumidas, mas não provadas, na Argentina, os grupos são umbilicalmente ligados ao crime, dotando suas ações de maior letalidade em relação ao que as brasileiras, autênticas gangues, protagonizam por aqui.

É inequívoco que tal situação precisa ser revista e barrada. Que o poder público precisa intervir de modo a garantir a segurança dos cidadãos que respeitam a lei. Parece que quem empunha a camisa de um time de futebol é automaticamente alçado a um estado paralelo onde suas ações individuais são desconsideradas.

Vândalos que invadiram o Centro de Treinamento do Corinthians para bater nos jogadores contaram depois com uma decisão amicíssima de um juiz, que considerou que a invasão era uma manifestação de amor dos torcedores pelo clube…

Sad but true.

Recentemente um promotor público, no programa Arena Sportv, afirmou que a grande dificuldade é tipificar os crimes, alegando não haver uma lei específica que puna os torcedores brigões.

Me pergunto: Tentativa de homicídio não é um crime tipificado? Agressão? Vandalismo? Formação de Quadrilha? Quais outras tipificações são necessárias para enquadrá-los?

Me parece um preciosismo jurídico bovino acreditar que é preciso uma lei específica para punir torcidas organizadas e, enquanto isso não acontecer, eles estarão livres, leves e soltos, para colocar a cidade de ponta cabeça toda vez que quiserem “amar” os times para o qual torcem.

Assista um jogo do campeonato inglês na TV. Observe o espetáculo. Os estádios não têm fossos ou alambrados. As primeiras fileiras de cadeiras estão imediatamente atrás ao banco de reservas. Não há brigas, invasões e agressões.

Difícil pensar que o futebol inglês abrigava os torcedores mais violentos do mundo: os hooligans.

hooligans

Margaret Thatcher, após uma tragédia ocorrida num jogo do Liverpool, onde dezenas de torcedores morreram, resolveu acabar com a violência nos estádios ingleses. Proibiu os times de jogarem competições internacionais por cinco anos, o Liverpool, time diretamente envolvida na confusão, por dez anos. Acabou com subsídios estatais, ordenou que todos os estádios tivessem lugares numerados e fossem obrigados a garantir a identificação dos torcedores através da numeração nas cadeiras e nos ingressos. (No Brasil os lugares são numerados, mas em poucos estádios o assento é respeitado).

Thatcher enfrentou os sindicatos, que usavam as torcidas organizadas como massa de manobra e não refugou ante a impopularidade das medidas. Tirou os alambrados, aumentou as penas para invasões de campo e brigas, elevou o preço dos ingressos, e obrigou os clubes a se organizarem para sobreviver com as próprias pernas, já que o governo não dava mais um tostão.

Precisando de dinheiro, os clubes precisavam zelar para ordem, já que punições, como a aplicada ao Liverpool, atingiriam diretamente seu caixa.

Os torcedores, com penas que iam desde o banimento vitalício dos estádios, até a prisão, começaram a diminuir seu ímpeto.

A Premier League é hoje o maior campeonato nacional do mundo.

É possível resolver? É. Porém, é necessário coragem. Alguém que tome as duras medidas e que puna, doa a quem doer, a despeito da impopularidade que se seguirá, já que a imprensa esportiva brasileira é, majoritariamente, de esquerda.

Espero que o futebol argentino se reforme através do lamentável episódio de La Bombonera.

E que o Brasil enfim resolva seguir os bons exemplos.

 

Por Renan Alves da Cruz 

 

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