A autoestrada, de Stephen King: uma novela sobre a intromissão do Estado

Faça aquele exercício de se colocar no lugar do outro. Imagine que você mora em uma casa, duramente comprada com o suor do seu trabalho numa empresa de médio porte, em que você ascendeu depois de anos de dedicação.

O governo então resolve construir uma rodovia que mesmo os urbanistas consideram despropositada e desnecessária. E, como desgraça pouca é bobagem, ela passará não apenas pelo território onde está sua casa, mas também onde está sua empresa.

Esta é a premissa básica do excelente “A Autoestrada” de Stephen King, originalmente publicado sob o pseudônimo secreto de Richard Bachman, cuja pitoresca história já relatei AQUI. 

Situada na década de 70, durante a crise energética, o curto romance desnuda a deterioração moral de Bart Dawes ante a ruína da vida que construíra.

Suas frustrações, sendo a mais destacada a perda de seu filho, estimulam a não aceitação da autoestrada. Bart não acha justo que o governo venha se intrometer em sua vida num momento tão inoportuno, destruindo a casa que guarda as raras lembranças de sua vida com o filho perdido, porque quer construir uma estrada de ocasião, apenas para não deixar de receber recursos federais.

Para piorar, como a estrada também demolirá sua empresa, Dawes é encarregado de negociar a compra de um novo imóvel comercial para a mudança, e, a despeito do governo pagar por todas as propriedades o valor de mercado, ele se recusa a compactuar com essa intromissão na vida de todos eles.

Deplorando todos os que se animam ante a novidade e o “progresso” trazido pelo empreendimento, Bart Dawes resolve fazer o que for preciso para sabotá-lo.

Emprego, casamento, limites da legalidade… nada irá detê-lo.

Recomendo a leitura. Aliás, esta já é minha segunda vez com esta obra. A linguagem ferina de Stephen King, a construção psicológica de Dawes, aproveitada ao extremo na descrição de seus pensamentos, a reflexão sobre os limites do progresso versus o Estado invasivo, e o espírito americano pós-Vietnã (o livro foi escrito no final da década de 70) fazem a conferida valer a pena.

Se você é leitor de ficção e se permite abrir o leque para além dos clássicos e da alta literatura, encare. Não será o melhor livro que você já leu. Sequer é o melhor de King, mas, ainda mais por ser curto, podendo ser concluído em dois ou três dias, vale a investida.

 

Por Renan Alves da Cruz 

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