A Reforma Protestante também moldou a história do Brasil

Evangélicos do mundo inteiro comemoram os 500 anos da Reforma Protestante em 2017. As 95 teses de Lutero, afixadas na catedral de Wittenberg, causaram uma revolução que transcendeu as fronteiras da dissensão religiosa e moldaram a estrutura política, social e econômica da Europa.

A Reforma é o maior avivamento cristão pós Igreja Primitiva. O ato de Lutero e de outros corajosos reformadores que enfrentaram o até então inquestionável poderio do Bispo de Roma, demonstrou a fragilidade teológica de uma Igreja mais preocupada com as questões mundanas do que com as celestiais, dominada por um clã corrupto, voltada à política, mirando o aumento de suas posses e do seu poder.

A nova mensagem correu veloz pela Europa. Se algumas porfias permaneceram no campo da teologia, outros aspectos foram levados em consideração. Foi a oportunidade que alguns reis encontraram para diminuir o poder papal. Na Inglaterra do testosterônico Henrique VIII, se tornou a desculpa perfeita para uma ruptura que possibilitasse o confisco de terras da Igreja, para citar um exemplo.

A Inglaterra estabeleceu o Anglicanismo. O continente se dividiu, com nações que aderiram à Reforma e nações que permaneceram católicas.

Como reação à Reforma, o Concílio de Trento estabeleceu algumas mudanças no catolicismo. Boa parte delas são tentativas de reafirmar o poder da Igreja num cenário de baixa. É a chamada Contrarreforma.

Este contra-ataque da Igreja Católica influenciou diretamente na colonização do Brasil.

Portugal era um dos países que se mantiveram alinhados à Roma. O país, com fortíssima tradição católica até hoje, estava começando a colonizar as terras encontradas por Pedro Alvares Cabral.

No contexto da contrarreforma nasceu a Companhia de Jesus, ordem missionária católica que objetivava conquistar novos adeptos à crença, num momento em que a Reforma estava em franca expansão e boa parte da Europa se convertia ao protestantismo.

Tornou-se, portanto, um propósito tático investir nos selvagens (índios) das regiões recém-descobertas, pois estes povos, na visão dos europeus, não apresentavam o mesmo grau de civilização alcançado por eles, de modo que, se controlados e “adestrados”, poderiam se tornar novos católicos.

Neste caldeirão de acontecimentos que  Manuel da Nóbrega, o fundador da ordem dos jesuítas (Companhia de Jesus), recomendou à vinda ao Brasil do famoso Padre José de Anchieta, o responsável pela catequização dos índios brasileiros.

Anchieta era espanhol, mas havia se mudado muito jovem para Portugal para estudar na Universidade de Coimbra. O padre veio para o Brasil e realizou o trabalho de alfabetização e conversão dos índios ao catolicismo.

José de Anchieta permaneceu o resto de sua vida no Brasil trabalhando junto aos índios. Foi essencial, inclusive, na proteção deles dos próprios portugueses, quando o processo de escravização de índios começou a ganhar vulto.

A presença católica é responsável, por exemplo, pelo nome da cidade de São Paulo, dado por Anchieta, por ter realizado a primeira missa na “cidade” no dia 25 de Janeiro, que é o dia da conversão de Paulo, segundo a tradição católica.

A presença dos jesuítas no Brasil contrabalançou os propósitos econômicos dos portugueses no país. Sua ação carimbou a força da tradição católica brasileira. Sendo Portugal um país que não absorveu elementos da Reforma, isto se traduziu na consolidação da religião brasileira, majoritariamente católica até hoje e fortemente influenciada por seus símbolos e tradições, mesmo com o grande crescimento protestante no país a partir do século XX.

A chegada tardia dos primeiros protestantes ao Brasil não modificou a estrutura já moldada.

E essa estrutura foi incentivada e planejada como forma de reação à Reforma que descatolizou boa parte da Europa.

Assim, através de ações e reações, fatos e consequências, o Brasil como construído foi fruto da tática de defesa católica contra os reformistas.

Mostrando que a Reforma Protestante também moldou a história do Brasil.

 

Por Renan Alves da Cruz

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