A perenidade das Ascensões e Quedas

O que seria da literatura, da ficção em qualquer mídia e da própria História enquanto área de debruço sem o charme atrativo das Ascensões e Quedas?

Pense num bom livro, um bom filme, um bom seriado ou mesmo, se você é do tipo, uma novela televisiva. Pense naquilo que consegue tragar sua atenção e te deslocar de onde está para o centro dos fatos.

Duvido que conseguirá listar muita coisa que não se escore numa trama de ascensão e queda, ou a boa e velha vingança.

Pegue, por exemplo, O Conde de Monte Cristo, um destes primores raros que conseguem ser estupendos também no cinema além do livro. Uma história requintada de vingança com todos os ingredientes imagináveis. Uma montanha russa de quedas e recomeços. Uma trama imortal.

De tão requintada a exaustivamente requentada. Toda semana estreia um novo filme ou seriado que reescreve Alexandre Dumas. E não digo isto em tom de crítica. Histórias de ascensões e quedas são clichês mutantes. Ser um clichê não é sempre demeritório. A palavra ganhou uma acepção de desprezo, entretanto esquecemos que um clichê só é erigido a esta condição por funcionar. Se ele ainda oferece condições para ser incrementado, fornecendo mutabilidade, tende a ser atrativo.

Tenho um carinho especial por Ascensões e Quedas. Não consigo pensar num argumento ficcional mais persuasivo do que uma boa reviravolta, seja ela engendrada por uma mente genial ou pelas mãos suaves do destino.

Meu apreço por este formato começou com um livro por quem tenho até hoje uma incomparável admiração que, sei reconhecer, transcende o reconhecimento de sua qualidade literária e atinge também o campo da memória afetiva.

Quando era um pré-adolescentes, depois de esgotar toda a literatura juvenil das três bibliotecas razoavelmente próximas de minha casa, temi que não tivesse mais o que ler. Os livros adultos pareciam tão chatos e longos, desprazerosos… Morria de medo de ler um livro adulto e desgostar da leitura pra sempre. Ler era meu principal passatempo. Queria mantê-lo assim.

Quem conseguiu realizar a ponte para mim foi a Dama Agatha Christie. Li todos os seus mais de oitenta romances, e, ao final, comecei a repeti-los… E o medo voltou. E se tentasse ler outro livro em que não tivesse Hercule Poirot ou Miss Marple ou algum outro engenhoso detetive e não me adaptasse?

A libertação veio com um livro de aparência despretensiosa, chamado O Oportunista, de Piers Paul Read.

É deste livro que quero falar hoje. Como você deve imaginar, era um livro de Ascensão e Queda, e também um livro de vingança.

E é até hoje, mesmo de tantos outros títulos lidos, o meu livro preferido. Aquele que, para voltar aos clichês, eu levaria para uma ilha deserta se tivesse de escolher um.

Foi o livro que me mostrou que não havia o que temer. Havia milênios de bons livros escritos no mundo e mesmo que eu tivesse cem vidas, não seria o bastante para ler todos. Eu não precisava (e nem deveria) me ater a um único autor, ou gênero, ou estilo. Eu era um apaixonado por livros, decidida e imutavelmente.

Desde então, já li o Oportunista sete vezes. É o livro que mais reli na vida. Mais ou menos a cada 3 anos no máximo o tomo e saboreio de novo, e sempre parece melhor, mais rico, mais vasto, mais completo. Não é o melhor livro que li na vida. Sei disso. Mas, se é que você me entende, é o melhor livro que li na vida!!!

Ok, talvez você não entenda, e se assim for, tanto melhor. Há sentimentos que não podem ser expressos. Ou talvez eu não tenha a capacidade para fazê-lo, afinal não sou Piers Paul Read…

Read não é um escritor muito conhecido por aqui. Teve uma meia dúzia de livros publicados, mas não a obra completa. Seus livros abundam em sebos, não raro encontrados nos saldões de 1, 2 ou 3 reais. Sua obra mais conhecida é Os Sobreviventes, um relato do caso real dos jogadores de rúgbi que sobreviveram a uma queda de avião nos Andes comendo os corpos dos colegas mortos.

Mas O Oportunista é, sem sombra de dúvidas, seu livro mais interessante. É a história Rise and Fall de Hilary Fletcher, o filho de um pároco inglês que vive à sombra da rica e tradicional família Metherall, primeiro fazendo de tudo para ser como eles, depois odiando-os a todo custo e dedicando-se a destruí-los.

Piers Paul Read consegue trabalhar o contexto social sem recair na velha lengalenga militante. Ricos não são vilões pelo simples fatos de serem ricos, com equivalente heroísmo direcionado à pobreza. A virtude aqui não se contabiliza em Libras. As caríssimas escolas tradicionais inglesas não corrigem um caráter debilitado, bem como o pedigree familiar não é parâmetro seguro de condenação ou salvação.

Num belo desfile clássico, condes, barões e baronetes transpiram a estrutura inglesa, sem, no entanto, o cheiro de mofo de tradições insolentes. O autor consegue dotá-las de sua inequívoca altissonância histórica.

O trecho mais marcante talvez seja o que demarca a angústia do jovem Hilary Fletcher para conseguir um traje de gala para ser inserido nos eventos da alta roda. A bonança esperada após a tempestade pode não se concluir se o traje, mesmo de gala, for inapropriado.

Hilary Fletcher terá que escolher entre continuar sendo humilhado ou se tornar senhor de seu destino.

E descobrir qual das escolhas, se é que isso é possível, lhe trará a tão sonhada paz.

Os coadjuvantes brilham como os trajes de gala que Hilary tanto invejava. A lisura fleumática de Edward Metherall, Lady Clare Metherall, sua esposa esnobe que, numa manobra típica da mais pura esquerda caviar, discursa consciência social enquanto se enraba de dinheiro, Mark Metherall, o decadente amigo de infância e Harriet Metherall, sua paixão inconclusa.

Hilary os amará e odiará. Os tentará salvar e destruir, muitas vezes sem saber o que está fazendo, muitas vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Também não poderia passar ao largo desta resenha, tendo eu já feito apontamentos próprios a respeito, à crítica bem humorada à tal arte moderna. Os trechos em que Hilary, já adulto e tornado artista, assume deliberadamente que está apenas sujando telas com tinta e ganhando dinheiro de tontos metidos a entendidos beira à hilariedade!

Em O Oportunista é possível gargalhar dessa espalhafatosa anti-arte moderna, bem como perceber o sem número de oportunidades que os hipócritas usam a tal “justiça social” como desculpa esfarrapada para uma espécie de auto-aburguesamento.

Piers Paul Read diz num trecho: “não se deve subestimar a habilidade de um degenerado” e é sensacional perceber o quanto esta sentença solta despretensiosamente na obra revela sobre sua essência.

Amo demais este livro. É a Ascensão e Queda de Hilary Fletcher. E mostra que às vezes as quedas podem ser as ascensões e as ascensões podem ser as quedas.

O que seria da literatura, da ficção em qualquer mídia e da própria História enquanto área de debruço sem o charme atrativo das Ascensões e Quedas?

O que seria de mim se não tivesse, em minha tenra adolescência, topado com um exemplar de O Oportunista?

Por Renan Alves da Cruz

 

 

 

 

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