A Marca Humana e a hipocrisia

Quem é viciado em literatura vai entender: há livros que nos transportam, e confesso que ao terminar de ler A MARCA HUMANA de Philip Roth me surpreendi com o fato de sua construção tão vívida ser apenas uma mera ficção.

Este é um livro que procurei depois de tanto ouvir boas recomendações. A sinopse parecia fascinante: A história de um professor prestigiado que entra em fragoroso declínio após ser acusado de racismo, tendo sua carreira manchada aos 70 anos de idade, buscando refúgio numa relação com uma mulher com metade de sua idade.

A história de ascensão e queda de Coleman Silk demonstra enfaticamente o quão enfadados estamos com este ávido “politicamente-corretês” da pós-modernidade. A sanha acusadora dos portadores das verdades benditas.

Com maestria, Roth narra o modo como estabeleceram-se guerras raciais para acabar com as… guerras raciais… A vida de Coleman vira um inferno após a acusação de racismo, com o empenho incansável daqueles que se atribuem o papel de detentores do monopólio da virtude. Não há interpretações. Se há duas versões para um mesmo fato, a verdade está do lado do “oprimido”.

O autor usa o escândalo Clinton-Lewinski para pontuar sua narrativa. Os EUA não estavam prontos para aceitar de bom grado um presidente pego com a boca na botija (ou, mais precisamente, uma estagiária pega com a boca na botija do presidente). Clinton passou por um processo de impeachment por perjúrio, ao mentir sobre a brincadeira no salão oval.

Já que há países em que o cargo de chefe do executivo não tem redoma protetiva. Enquanto aqui as Dilmazetes gritam ser golpismo, em nações de democracia sólida, um presidente pode perder o cargo por muito menos do que temos visto em nossas paragens.

O contraponto à análise do caso Clinton é o relacionamento de Coleman com uma faxineira, que, estranhamente, ostentava seu analfabetismo, e tinha metade de sua idade.

Em minha opinião, o toque de mestre de Roth.

Coleman começa a ser acossado, mas não por conservadores fundamentalistas. O apupo vem dos liberais, que querem colocar a amante, Faunia, (que é mais esperta e experimentada em assuntos coitais do que eles imaginam) no papel de vítima. O mal e vil Coleman estaria usando de sua posição e status para seduzir uma jovem vítima oprimida…

A MARCA HUMANA é um livro sobre as patrulhas atuais, o policiamento comportamental em vigência e o aparelhamento da Academia. É um livro sobre o insano estado das coisas, pela pena de um dos mais brilhantes escritores vivos.

Não quero estragar o prazer de um futuro leitor com algum spoiler mal colocado. Mas posso garantir que nas 450 páginas de A MARCA HUMANA há um tonel de referências, que agradarão a pessoas de todos os vieses ideológicos.

Defendo a ideia de que, a não ser em alguns casos de proselitismo explícito, a arte não pode ser subjugada a posições ideológicas. Provavelmente leitores à minha esquerda terão interpretações bem mais progressistas que a minha, outros, na base direitista, conseguirão notar críticas firmes ao ideário de esquerda, principalmente na professora Delphine Roux, a feminista independente típica, que se torna refém da ideologia que ostenta, enquanto é infeliz por não ter um verdadeiro macho alpha do seu lado.

Roth inclusive já ouviu uns bons latidos de grupos feministas durante sua carreira e isso, para mim, no mundo atual, no sentido dado ao feminismo, é uma qualificação e tanto. Fosse eu escritor, não sonharia com nada diferente.

Perceber que a história tão nítida e vívida narrada em A MARCA HUMANA é fictícia ainda me causa estupor. É sem dúvida um dos melhores livros de ficção que li nos últimos tempos.

 

Por Renan Alves da Cruz

 

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