A Corrente do Mal e nossa sociedade “sexocêntrica”

Filmes de terror raramente recebem elogios entusiasmados da crítica, afinal, ao primarem por nutrir a plateia de sustos, abrem mão da qualidade artística, e, quase sempre da obviedade.

Uma surpresa boa nos últimos tempos foi o lançamento do filme Corrente do Mal, que fez sucesso em festivais internacionais e ganhou menções de alguns grandões do mainstream, como Quentin Tarantino.

A história é engenhosa: Um rapaz faz sexo com uma jovem e, depois do ato, a informa de que lhe transmitiu uma maldição, que também foi passada a ele através de uma relação sexual.

Ela deve, para se livrar, passar adiante.

E a maldição se manifesta através da visão de uma pessoa nua, que só o amaldiçoado pode ver (e o último transmissor, por um breve período de tempo), que caminha lentamente em sua direção.

Se permitir ser alcançada, será morta.

E a maldição volta para o hospedeiro anterior.

A manifestação física da moléstia , que é uma pessoa caminhando em sua direção, nem sempre é de fácil identificação, já que a feição do “zumbi” sempre muda. Pode ser homem ou mulher, estar nu ou vestido, ser adulto ou criança.

E como só quem carrega a maldição o vê, possui poucas condições de contar com ajuda externa.

E se transar com qualquer um apenas para se livrar do perigo, precisa alertar e convencer o parceiro de uma história tão estapafúrdia, pois se o próximo que pegar a “coisa” for alcançado pela maldição, será morto, e ela retornará para quem transmitiu.

A premissa é muito, muito boa.

A analogia óbvia feita (que eu, particularmente, descarto), é com as doenças sexualmente transmissíveis, especialmente a AIDS. A comparação, é claro, é bem simplória e demanda certa preguiça de pensar.

A Corrente do Mal permite que se vá mais além. Concede o papel de titereiro de destinos malfadados às relações sexuais, coisa rara no nosso sexocêntrico mundo pós-contemporâneo, que elegeu a multiplicidade sexual como o graal a ser buscado.

Vivemos uma falência moral que desdenha da monogamia, vivemos na era do Tinder, da pornografia, do desejo fácil.

Uma falência cultural em que músicas imundas e que mencionam barbaridades da forma mais explícita possível animam bailes em que crianças fazem sexo sem nem mesmo sair da pista de dança.

O sexocentrismo de nossa sociedade anulou a pureza do ato sexual, fazendo com que aqueles que optam por se guardarem para o casamento sejam tratados como extraterrestres retardados.

O esforço em descolar sexo de relacionamento, de amor, de envolvimento, de responsabilidade. A defesa de que somos apenas animais e que devemos nos entregar despudoradamente aos instintos, acompanhando a acusação de que qualquer um que não reze pela cartilha hedonista é um loser.

O sexo, queiram seus consumadores ou não, é um ato íntimo, de coexistência.

É impossível envolver-se sexualmente com alguém e depois partir sem resquícios. Sendo o ato máximo de união e intimidade que Deus criou, sendo por isto mesmo apropriado aos casados, não pode funcionar de outra forma, sem vestígios, ao bel prazer dos descaracterizados e vazios.

Você sempre cria um elo com quem transa. Não importa se foi um encontro fugidio, uma rapidinha sem apresentações no final de uma noite ébria.

Você sempre levará algo consigo, e sempre deixará algo lá.

 

Por Renan Alves da Cruz 

 

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2 comentários em “A Corrente do Mal e nossa sociedade “sexocêntrica””

  1. Espetáculo de texto, Renan! Grande reflexão de assunto tão importante e tão infelizmente banalizado.
    “O sexo, queiram seus consumadores ou não, é um ato íntimo, de coexistência.”, é fato!
    Tanto há para lastimar, por essa sociedade crua e desvirtuada em seus valores… é tão cruel que vejamos o sexo de forma banal e descartável… é tão trágico que tudo se dê assim sem importância… Criamos gerações apáticas e nossa permissividade sem limites nos devolveu desvalores com os quais não suportamos conviver.

    • Olá, Mônica.
      Obrigado pelas palavras. Concordo com suas palavras, que triste é assistir in loco a perda de valor de algo tão importante. Que triste é ver a nossa involução moral.

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