1Q84 e nossa ditadura de realidade

Toda vez que assisto um noticiário ou leio um jornal, chego a uma conclusão:

Vivemos sob uma ditadura de realidade.

O palpável, real e material, assumiu a direção da contemporaneidade, impedindo a manifestação do imaginativo, lúdico e metafísico.

Não consegui afastar de meus pensamentos tal definição, ao terminal a leitura da trilogia 1Q84 do japonês Haruki Murakami.

Nunca havia lido nenhuma obra do autor, mesmo com a avalanche de elogios que tem recebido, cogitando-o inclusive como nobelizável. Não me sentia animado a encarar a leitura das mais de 1000 páginas da trilogia.

A sinopse da obra (agora entendo o porquê), parecia incompreensível, num nível de fantasia além de minha disposição. Afinal, também estava acorrentado à ditadura de realidade dos dias atuais. O que me deu coragem foi o fato do título remeter a grande obra de Orwell; fui captado pela propaganda e resolvi encarar os 3 volumes.

E fui envolvido.

A originalidade da trama é o maior trunfo. As histórias de Tengo, um matemático com pretensões de se tornar escritor, que aceita o desafio de reescrever uma obra de fantasia de grande potencial de uma jovem de 17 anos, e Aomame, uma justiceira que executa homens que abusam de mulheres, começam a se delinear em torno de uma seita religiosa secreta, um céu com duas luas, um Povo Pequenino e situações que desafiam a normalidade.

Tengo se torna personagem da história de tons absurdo que escreve. O Povo Pequenino vive, e desafiar a seita secreta que o conhece exigirá dele mais do que fibra, precisará reencontrar sua paixão da infância, a misteriosa Aomame.

Esqueça o que é crível. 1Q84 é uma história transcendente, que não se obriga a se prender a limite algum

Murakami lida com o impossível sem alterar a voz narrativa. Não precisa gritar para ser entendido, nem apelar a mecanismos metafísicos baratos. Sua trilogia está no grupo de obras que terei prazer em reler num futuro próximo, para absorver ainda mais de seu vasto universo. Gosto de segundas leituras, não raro são as que propiciam a descoberta da maior parte da riqueza, submersa à primeira visitação.

Em tempo, não conheço a obra do autor inteira, mas por 1Q84 não acho, ainda, que seja digno de um Nobel. O resto da bibliografia está em minha fila de leituras e pode mudar minha opinião. O último tomo da trilogia, embora não seja ruim, poderia ter sido melhor, e não acompanha o ritmo dos dois primeiros, principalmente do segundo, disparadamente o melhor volume.

Porém, se você está tão envolvido nessa coisa apelidada de realidade e precisa dar uma espairecida, corra para uma livraria. A obra é vendida separadamente ou num box com os três volumes, editada pela excelente Alfaguara, selo da editora Objetiva.

A cada dia que passa os jornais me cansam. O Brasil petista me cansa. Preciso me desligar de vez em quando.

E confesso, tenho olhado o céu com mais frequência, para contar quantas luas vejo…

 

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